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13/01/2009 - Acompanhe a ultima entrevista de Fiori Giglioti, que faleu em 2006

O que mais o senhor fez, alm do rdio?
Perdi meu pai muito cedo. Tinha de 12 para 13 anos. ramos em nove irmos e eu precisava me virar. Peguei uma caixa de sabo e construi uma caixa de engraxar sapatos. Eu dividia o resultado: dava um pouquinho para minha me e um pouquinho para mim. Logo, procurei um outro tipo de emprego e arrumei um no jornal Correio de Lins.

E a experincia numa emissora?
Foi com 17 anos, em Lins mesmo. Primeiro, escrevia um programa chamado "A Marcha do Esporte" numa das rdios de Ja. Pedi para apresent-lo, pois o locutor no se interessava muito por futebol, ao contrrio de mim. A princpio os diretores relutaram, mas, quando deixaram, o programa comeou a subir barbaridade em audincia.

Foi quando deslanchou sua carreira de narrador esportivo?
Nessa poca, a rdio me chamou tambm para apresentar outros formatos. Comecei com programas musicais e de auditrio e, todo domingo, irradiava, no s em Lins, mas tambm em outras cidades do Estado. A partir desse momento, comearam a aparecer propostas de outras emissoras, da vizinha Araatuba, e da Bandeirantes e Tupi, da capital. Tive curiosidade de conversar com os dirigentes da Bandeirantes, e assim vim para So Paulo.

E como foi esse contato?
Conversei com o Edson Leite, diretor de esportes da emissora. Comentei que gostaria de vir, porm, precisava avaliar a proposta. No que eu fosse rico, mas eu ganhava muito bem. Ele perguntou se eu toparia irradiar ao vivo o jogo entre a Seleo Paulista e o Santos, na Vila Belmiro. Foi um teste.

Era o comeo das transmisses ao vivo?
Elas eram raras. Aceitei, irradiei, caprichei. Na volta, passei pela emissora e vi que os diretores da Bandeirantes estavam interessados mesmo em me segurar. Conversa para l, conversa para c, aceitei a proposta e comecei no dia 1 de julho de 1952.

O senhor criou uma escola?
Mudei completamente o estilo de irradiar, e a linguagem esportiva. Criei bordes que se massificaram e se tornaram uma espcie de adorno para as transmisses. O mais popular "abrem-se as cortinas e comea o espetculo".

De onde vinha a inspirao para essas frases?
Durante o perodo que fui titular absoluto da ento Panamericana (hoje Jovem Pan), fiz um estudo daquilo que podia jogar no mercado. Comecei a criar os bordes. Os narradores falavam "so passados 30 minutos", eu criei "o tempo passa". Quando o jogador cabeceava a bola, em vez de "ele sobe" ou "toca a cabea", criei "cabea na bola", "sossega a defesa do Corinthians", "tenta passar, mas no passa", "ele gosta da bola", "uma beleza de gol, torcida brasileira". Outra coisa que sempre me ajudou muito foi que, quando saa um gol bonito, eu caprichava na legenda.

Com toda essa experincia, qual a avaliao que o senhor faz do futebol?
O futebol viveu dois perodos. At a copa de 70 era um esporte maravilhoso. Naquela ocasio, no tinha seleo ruim. A maior defesa de um goleiro na copa foi em 70 e o maior ndice de pblico foi em 70; e o Brasil foi um tricampeo maravilhoso. Foi considerada a melhor equipe preparada fisicamente para a copa. Depois da copa de 70, o futebol virou um balco de negcios.

Quantas copas o senhor cobriu?
Foram dez. De 1962 para c eu s no cobri a de 2002, no Japo e Coria.

Nestes 58 anos de carreira, que jogo o senhor destacaria?
Foi o jogo do Brasil e Espanha, em 1962. O Pel tinha se machucado contra a ento Tchecoslovquia no segundo jogo. E a Espanha tinha uma seleo forte. Ela comeou ganhando de 1 a 0. Eu fiquei desesperado. O Brasil fez 1 a 1 e 2 a 1 com Amarildo, e ganhou. Foi uma emoo fantstica, porque se a seleo perdesse, a copa tambm estava perdida.

E de qual o senhor no gosta nem de lembrar?
Foi em 1982. Tiraram o Rossi (atacante italiano) do banco para ele acabar com o Brasil.

Com tantos interesses, ainda existe poesia no futebol?
Eu acho que futebol tem muito amor. Onde h amor tem poesia. A poesia muito relacionada com amor, sacrifcio, dor, f e esperana. Quem quiser seguir uma carreira de jogador de futebol e alcanar sucesso tem que seguir essas luzes ou essas dores.

Qual (is) jogador (es) jogavam por poesia?
Ademir da Guia, Scrates...

Pode-se dizer que at a dcada de 70, jogava-se o futebol-arte?
Sim. o caso da msica. A msica do grande compositor de hoje precisa ser vendvel, comercial, seno no adianta. O mesmo ocorre com o jogador de futebol; se ele no fizer algumas firulas, jogadas bonitas, enfeitar os espetculos, nunca vai se destacar. Ser mais um, como milhares e milhares.

O senhor j pensou em abandonar a carreira?
J, quando fiquei contrariado com duas pessoas, que considerava excelentes colegas. Estvamos na Arglia, em 1961. Fomos conhecer o local do jogo e saber da dificuldade que teramos para montar o equipamento. Como no havia tomadas suficientes, eu precisava de uma ou de mais fios para chegar at a beira do campo. Eles, da Bandeirantes, tinham um rolo de 50 metros. Pedi para eles: "Pelo amor de Deus gente, me arruma uns cinco metros de fio." Responderam: "Ah, Fiori, a gente gosta de voc, mas somos profissionais." Falei: "No, no, vocs so profissionais, eu que no sou."
O Lenidas, que era o meu comentarista, queria partir para cima deles.

Foi um boicote contra o senhor?
Exatamente, mas sabe o que aconteceu? Veja o que o improviso. Solicitei ao Lenidas que anotasse detalhes do jogo, os gols, quem fez, a hora que terminou o primeiro tempo, que comeou o segundo tempo. Fiz a abertura olhando para as montanhas bonitas de l, cu azul. E teve um gol, dois, trs, seis a zero; o Brasil ganhou da seleo da Arglia. Acabou o jogo, o Lenidas chegou; anunciei o seu comentrio. Dei os times, destaquei os que fizeram os gols, coisa e tal. Pedi desculpas por alguns percalos, insuperveis ainda no rdio moderno. Fui para o hotel. Quando um telegrama chegou, abri e estava escrito: "Fiori: s saram os ltimos 18 minutos, mas perfeitos. Soubemos dos gols e de todos detalhes. Todo mundo que ficou sabendo alguma coisa teve que ouvir a nossa Panamericana. Um beijo. Fique com Deus."

Mas o senhor no saiu de campo. Agora, com 77 anos, ainda tem muito flego para continuar na ativa?
Estou na luta. Hoje, por exemplo, estou na Capital; participo mais como comentarista do que como narrador. Estou bem. O que preciso da minha sade (ao conceder a entrevista, ele se recuperava de uma crise no nervo citico).
Pelo preparo fsico, dizem que os jogadores do passado no se destacariam no futebol de hoje...
Depende da reserva fsica e do ritmo de vida do jogador.

O Brasil pode ser o campeo desta Copa?
Desde que faa uma preparao sria com toda humildade e respeito. Seleo unida na simplicidade, na f, na esperana, na competncia tcnica imbatvel. Mas eu tenho medo de que eles estejam l para fazer "fashion week".

Com o avano das mdias, inclusive, no futebol, o rdio ainda tem espao?
Se tem. O rdio o veculo informativo mais dinmico. No que fracassou, ele se encolheu, ficou com medo da televiso. Precisa procurar o seu espao.

Qual o conselho para quem pretende seguir uma carreira como a sua?
Tem que estudar; integrar-se ao segmento pelo qual se interessa, semeando e colhendo, para conseguir o mnimo de oportunidade durante o mais curto prazo de tempo possvel. Quando esse dia chegar, estar mais preparado.

O tempo mudou o seu tradicional grito de gol?
No. " gol torcida brasileira". Sempre grito: " uma beleza de gol".

Por qual time o senhor torce?
Sou torcedor do Linense, do qual tambm fui jogador.

Na sua opinio, o que atrapalha o futebol?
A lei Pel protege demais os jogadores e os empresrios, e desprotege os clubes. Essa pergunta muito importante e talvez seja a oportunidade de dizer o seguinte: o futebol empolga tanto, monopoliza tanto que, entre outras coisas, o esporte das multides. Eu acho que o Congresso deveria fazer leis especficas para o futebol. Meia dzia delas resolveria.




Fiori Gigliotti foi um dos mais prestigiados locutores esportivos brasileiros. Nascido em 27 de setembro de 1928 na cidade de Barra Bonita, no interior paulista, Fiori desenvolveu seu talento nas suas audincias na infncia da Rdio Difusora. Nela o locutor Rebelo Jnior fazia suas narraes esportivas, que entusiasmaram o menino, que decidiu seguir, no futuro, o radialismo. Iniciou sua carreira em 1947, na Rdio Clube de Lins, tambm no interior paulista, apresentando o programa de auditrio "Al Gurizada", dedicado ao pblico juvenil.

Na Rdio Cultura de Araatuba, Fiori Gigliotti apresentou os programas "Crepsculo Romntico" e "Quando fala o corao". Tornou-se um estrondoso sucesso na regio. Fiori tornou-se alvo do assdio das fs e o locutor sentiu-se obrigado a fugir da cidade, ao saber que uma f apaixonada o perseguia insistentemente.

Em 1952, transferiu o seu programa de sucesso, "Quando fala o corao", para a Rdio Bandeirantes de So Paulo. O programa recebia mais de mil cartas por ms. Na rdio, Fiori tambm se tornou integrante da equipe esportiva da emissora, estreando como narrador esportivo durante a transmisso de um treino da seleo paulista e de uma partida com o Santos Futebol Clube.

Em 1953, tornou-se o segundo narrador do Campeonato Sul-Americano, realizado no Peru. O primeiro narrador era Edson Leite. O segundo seria Hlio Priolli, mas este foi preterido por Gigliotti. Chateado, Priolli pediu demisso da rdio. Fiori prosseguiu sua experincia narrando torneios regionais em So Paulo.

Em 1958, Gigliotti tornou-se locutor titular da Rdio Panamericana AM (hoje Jovem Pan 1). Depois, em 1962, tornou-se locutor da primeira Copa Libertadores da Amrica. Em 1963 retornou Rdio Bandeirantes AM de So Paulo, sendo locutor esportivo titular. Permaneceu na rdio at dezembro de 1995. Em 1996, trabalhou na Rdio Record AM e, em seguida, foi contratado pela Rdio Capital, onde encerrou sua carreira. Ao longo delas, foram dez participaes como narrador em Copas do Mundo e nos ltimos anos ele trabalhava como comentarista esportivo.

Fiori Gigliotti tornou-se conhecido por lanar no radialismo esportivo as expresses "Agenta corao" e "torcida brasileira".



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