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30/08/2010 - Vida de jogador: trocando seis por nada

Diariamente acompanhamos jogadores reclamando da situao dos clubes em que esto. As razes para o descontentamento so as mais variadas possveis. Elas passam por falta de oportunidade no time, mau relacionamento com os companheiros e treinador, falta de identificao e brigas com a torcida ou uma proposta irrecusvel de um time obscuro da Europa ou do Oriente Mdio.

Bem, poderamos gastar horas listando o que os atletas inventam de desculpas para abandonar um clube e procurar outro lugar para jogar. Est certo que os clubes, em muitas oportunidades, no cumprem o prometido com os atletas, mas eu acho que os profissionais so muito mal orientados em alguns casos.

Muitos no o devido valor situao privilegiada de poder estar num clube grande, com estrutura, e acabam se enfiando em tremendas barcas furadas. Por essa precipitao acabam tendo suas carreiras seriamente prejudicadas e abreviadas.

Aqui, passo para vocs um depoimento de um jogador que poderia ter tido um futuro brilhante, mas por ter cometido vrios erros nas suas transferncias, hoje vive com dificuldades. Nas partidas de veteranos de que participa, ouve sempre a pergunta fatal que mina a autoestima de qualquer ex-jogador: "Quem voc mesmo?"

"Eu fui muito burro. Joguei tudo fora na minha vida. Tive a chance de passar por um funil que poucos conseguem. Cheguei a um time grande de So Paulo e no soube o que fazer. No dei valor ao que eu tinha conseguido e nem ao meu talento.

Olha aqui, veja quantos ex-jogadores. Eu sei que muitos foram bem piores do que eu. Cara que fica dando autgrafo a, tido como smbolo do clube, era meu reserva. Tem um monte de gente a que nem era relacionada quando eu era juvenil. Agora, eles esto bem. Foram espertos.

Uma pena que s hoje eu percebo a potncia de um clube como esse. No meu tempo, a gente no tinha a estrutura que os jogadores tm, com campos de treino, tratamento mdico de primeira, mas o que o clube oferecia era bom demais.

Cara, eu sa desse time grande por besteira. Eu tinha estourado de idade, sempre me concentrava com os profissionais. Aos poucos, fui conquistando um lugar no banco e com o tempo comecei entrando nas partidas. O engraado que eu aguentava tranquilo todo o perodo que esperava ficar entre os reservas.

Mas, quando eu comecei a entrar nas partidas, a fiquei impaciente. Quando voc joga num time grande, vem logo a fama. Voc tem o seu lado vaidoso, quer aparecer cada vez mais. Eu queria estar na TV para mostrar para os meus amigos da vila. Tambm, naquele tempo, quando voc entrava no jogo e o time ganhava, o bicho vinha. Me lembro que s com os meus trs primeiros bichos eu consegui comprar um carro.

Ento, eu comecei a forar a barra para ser titular. Por mais que os diretores, o treinador e os veteranos do time tentassem me explicar que eu era novo, eu nem queria saber. Por isso, fui fazendo uma besteira atrs da outra. Logo, descobri que poderia ganhar um bom dinheiro jogando em uns jogos de vrzea. Eu, muito bobo, inventava uma contuso para ficar de fora de um jogo de profissionais para jogar em alguma quebrada.

Tambm me faltou algum que me orientasse. Hoje, qualquer garoto de 12, 13 anos tem procurador. Eu no tinha nada disso. Eu, otrio, cai no papo de um diretor de um time de nome do Rio de Janeiro e comecei a forar minha sada daqui. Como naquele tempo tinha o passe, comecei a aprontar mesmo para que o time me liberasse, com o preo baixo.

Eu comecei a chegar atrasado aos treinos, brigar em treinamentos, tudo para forar a minha sada. Em nenhum momento pensei no clube e, o que bem pior, em mim. Eu no percebia --e nem sabia-- que estava acabando com as minhas chances em um dos grandes clubes daqui.

Consegui meu objetivo. O clube me vendeu e fui para o Rio de Janeiro, com um salrio quase dez vezes que eu ganhava em So Paulo. Eu estava acostumado com o ritmo daqui e quando eu cheguei l as diferenas eram tremendas. O ritmo de treinamento era outro, as condies do departamento mdico eram ruins.

Para complicar ainda mais eu cheguei num time que tinha um monte de craques e grupo de jogadores que controlava quem jogava ou no. No tinha jeito: quem no entrasse na patota desses caras, danava. Eu sem experincia tentei enfrentar a "panela" e me dei mal.

No jogar tudo bem. Mas a coisa complicou quando chegou o dia do primeiro pagamento. A grana no caiu. Fui falar com o diretor que me contratou, e ele me pediu dez dias de prazo. Que viraram trinta dias, dois meses e foi indo. No terceiro ms, fui cobrar de novo. Ouvi que o clube no me pagaria porque eu no jogava. A eu descobri que nem o meu passe eles tinham me acertado.

Tentei voltar ao meu time de origem, mas eles no me aceitariam por tudo que eu tinha feito para forar minha sada. A nica coisa que eles fariam era me dar o passe. Fiquei com os meus direitos, mas como era o ms de agosto, eu s teria condies de jogar em outro time no prximo ano.

Procurei vrios times no perodo e no conseguia nenhum time para jogar. Ca numa lista negra, j que tinha criado problemas em dois times grandes. S achei lugar num time do interior de Gois.

Com todo respeito, a foi o meu fim.

O clube no tinha nem bola para treinamento. Os jogadores cuidavam do prprio material e tudo que o clube dava de alimentao era um caf com um po com manteiga amanhecido. Na concentrao, eu dormia no cho num lugar que s tinha mosquitos. Ainda era sacaneado pelos meus companheiros que diziam que eu tinha que resolver as partidas, pois ganhava mais e tinha jogado em grandes centros.

Em um ano, tinha sado do cu para o inferno. E infelizmente ainda estou nele. J faz 20 anos."

Depois da ltima frase no falou mais nada. Nem precisava.

No futebol, como na vida, preciso dar valor ao que se tem e nunca, por precipitao, trocar seis por nada. Em muitas oportunidades no h como reparar o erro.


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