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19/08/2010 - Quando o cime entra em campo

Por Lucio Saretta:



Um sentimento avassalador. De inveja ou de desprezo, de sofrimento tambm. Assim o cime, coisa que incomoda e pode trazer a discrdia entre um casal de namorados. O cime, sem embargo, no exclusividade dos amantes. Ele est presente no mundo do futebol, geralmente onde houver um craque com um grande ego ou talento. Quando algum clube rene muitas estrelas, por exemplo, o cime encontra um frtil terreno para prosperar.

No que Paulo Valentim (foto) fosse uma estrela, mas no Boca Juniors, campeo argentino de 1962, ele era uma referncia indiscutvel. "O curioso de Paulo Valentim que era negro sem ser negro", disse o cronista Roberto Fontanarossa, quando muitos anos depois escreveu sobre aquela memorvel equipe. O antigo homem-gol do Botafogo tinha uma pele escura, mas cabelos de sarar. Era um dolo misterioso vestindo a camisa nove azul e ouro. At que chegou Bombonera Jos "El Nene" Sanfilippo. Jogador de raa e habilidade incomum, compadre do presidente Alberto J. Armando, ele havia sido vrias vezes artilheiro do campeonato defendendo o San Lorenzo. Dono de um gnio forte , Sanfilippo no demorou em atritar-se com Valentim. Qual o motivo? Em suas memrias "El Nene" atesta: "Con Paulo tena poco trato, porque el negro era muy parco, no se daba con los muchachos y menos conmigo. Quizs existiera un poco de celos".


uma pena Valentim no estar mais entre ns para dar a sua verso dos fatos. Logo ele, que tantas vezes vazou as metas inimigas, levando a torcida boquense loucura. Pintou-se ento um triste quadro, dois goleadores notveis e que poderiam ter formado uma bela sociedade, no fosse pelo cime. Para Sanfilippo, o time de 63 foi o melhor da histria do Boca. Roma no gol, Orlando Peanha de Carvalho na zaga, os grandes Marzolini e Rattin, alm de um ataque fabuloso com o "louco" Corbatta, Angel Rojas, Paulo Valentim, Sanfilippo e Alberto Gonzlez. Talvez por causa de tamanha concentrao de craques, o tcnico Pedernera no pode impedir as intrigas entre Sanfilippo e Valentim, o egosmo superando os interesses do grupo, um no passando a bola para o outro. Aps uma temporada, "El Nene" deixa o clube. Curiosamente, o Boca voltaria a ser campeo no ano seguinte, com grande colaborao de Valentim.

O caminho das redes nunca foi estranho para Paulo Valentim. Principalmente no Botafogo, onde ele jogou ao lado do maestro Didi. E, assim como Valentim, o inventor da "folha seca" no demoraria a sentir o gosto amargo da inveja e do cime. Integrando o plantel do todo poderoso Real Madri da Espanha, Didi viveu o seu inferno particular. Tudo porque em 59, ano da sua transferncia para o velho mundo, o clube merengue j tinha um "dono" dentro das quatro linhas. Um jogador fora de srie, talvez at melhor do que Didi. Falo de Alfredo Di Stfano. Desde muito cedo uma valiosa prata da casa do River Plate, Di Stfano era um rapazote ruivo e muito veloz. Apelidado de "La saeta rubia", chegou a fazer parte da famosa "Mquina" do clube de Buenos Aires. Mais maduro, foi jogar no Millonarios da Colmbia. Era o lendrio "Ballet Azul", que certa vez derrotou o Real Madri dentro de seus domnios, levando o presidente Santiago Bernabeu a comprar Di Stfano. Na Europa, o argentino passou a ocupar todos os espaos do campo, no guardando posio no seu empenho em conduzir o Real Madri a novas vitrias. Didi no tinha nada a ver com isso, mas o choque entre os craques foi estrondoso. Dizem as ms lnguas que Di Stfano teria boicotado Didi no clube.

Nesse instante, gostaria de apontar os holofotes sobre um terceiro personagem envolvido no episdio. Para Puskas, que na poca tambm jogava no Real Madri, Didi sofreu um processo de engorda no clube, tornando-se um jogador lento e fadado ao banco de reservas. Difcil imaginar Didi gordo, ainda mais comparando a sua silhueta com a do prprio "major galopante", sempre robusto e bem alimentado. Mesmo sendo um jogador de alto gabarito, Puskas soube aceitar com humildade a liderana de Di Stfano quando chegou Espanha, assumindo um rolo de coadjuvante na equipe. Talvez tenha faltado um pouco de diplomacia a Didi, mas provvel que o argentino tenha encarado a sua presena como uma ameaa ao seu estrelato. Enquanto isso, Guiomar, a esposa de Didi, escrevia artigos para o jornal "ltima Hora", dizendo que Di Stfano tinha cimes do seu marido. O fato que Didi, que tanto almejara jogar na Europa e conhecer novas culturas, acabou voltando ao Botafogo.

Depois de pendurar as chuteiras, Didi evitava falar sobre o assunto. bem possvel que o ocorrido na Espanha tenha deixado alguma ferida no famoso jogador. Geralmente um sentimento entre pessoas que se amam, o cime dentro do futebol causador de desunio, contrariando os princpios essenciais do esporte.


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