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15/01/2010 - A triste história do ponta Tita, que jogou no Atlético Mineiro, América e outros

Na toto da capa, Tita com a faixa de pentacampeão mineiro (1978 a 1982) no peito, Tita exibe os troféus de campeão do Torneio de Toulon, na França, pela Seleção Brasileira de Novos, em 1981; e de melhor ponta-de-lança do Campeonato Mineiro de 1986, quando defendeu o América. Aposentado, há sete anos ele mora na Vila Ercília, em Rio Preto



Na foto da matéria, o time do São José - Vice-campeão paulista e do Brasileiro da SérieB de 89. De pé: Joãozinho, Marquinhos Capixaba, Juninho Fonseca, Rafael, André Luiz, Fabiano e Nico (massagista); agachados: Amarildo, Tita, Toni, Vander Luiz e Marcinho



Dramaturgos e roteiristas teriam inspiração de sobra para contar a história de Tita. Numa demonstração de luta, fé e muita vontade de viver, o jogador, ídolo do Atlético-MG e que ajudou o América no Paulistão de 1983, superou uma tragédia. Quinta-feira, 4 de abril de 1996, ele e a família viajavam de São José dos Campos, no Vale do Paraíba, para Belo Horizonte, onde visitariam parentes. Mas o destino traiçoeiro estava traçado e um grave acidente mudou os rumos da história. A rodovia Fernão Dias (BR-381) passava por reformas e os motoristas levavam até 18 horas para completar o trajeto de 450 quilômetros entre as duas cidades. Tita buscou uma rota alternativa pela BR-393 até Três Rios, no Rio de Janeiro. De lá seguiria para Juiz de Fora e, depois, Belo Horizonte. Na altura de Vassouras, no Rio de Janeiro, uma carreta manobrava em um posto de combustível e invadiu a pista atingindo o seu carro, um Gol Plus.

A mulher dele, Silvana, fraturou a coluna cervical e morreu na hora. Os filhos do casal, Thiago e Thayara Roberta, não se machucaram. Tita ficou gravemente ferido, sofrendo cinco fraturas em ossos da face, três costelas, nas duas mãos, no pé, joelho direito e na bacia, além de um traumatismo craniano gravíssimo. "Levei 29 pontos na cabeça", diz. Arrebentado, o jogador ficou 30 dias em coma, seis meses internado na UTI e um ano sem memória. "Não conhecia ninguém e não me lembrava de absolutamente nada." Só depois de um ano teve condição de se locomover em cadeira de rodas. A previsão dos médicos é de que ele ficaria seis meses em cadeira de rodas, mas depois de 30 dias como cadeirante voltou a andar com as próprias pernas, graças ao tratamento intensivo e à fisioterapia. Um ano depois do acidente, Tita acordou um certo dia com dores no corpo. "Dormi mal", pensou. De repente reconheceu os dois filhos e outros parentes. "O médico havia dito que um dia eu recuperaria a memória ou não falaria coisa com coisa e graças a Deus tudo voltou à minha mente."

Ficou sabendo da morte da mulher através dos compadres Faustino e Toninho, ambos de São José dos Campos. Muito chocado, conseguiu reunir forças para encarar a realidade. "Devo ter uma obra grande para fazer aqui na Terra porque não havia sentido Deus me poupar assim daquela tragédia." Lembrou-se de praticamente tudo, menos do terrível acidente que transformou sua vida. Recordou, inclusive, os seis meses em que defendeu o América, de Rio Preto, no Paulistão de 1983. "O Birigüi (Benedito Teixeira) foi buscar um atacante em Belo Horizonte e dirigentes do Atlético-MG queriam empurrá-lo um outro jogador", diz. "O Birigüi decidiu ver o coletivo e depois do treino falou: ‘Quero aquele neguinho’. Ele nem sabia meu nome." A morte de Olinto Cassemiro, pai de Tita, ocorrida em janeiro daquele ano, pesou na decisão do jogador de deixar o Galo. "Pensei até em encerrar a carreira. Queria ficar longe de Belo Horizonte", afirmou. Chegou ao América em julho, quando a equipe tinha somado apenas nove pontos e corria risco de rebaixamento. "Recebi Cr$ 1,2 milhão de luvas e Cr$ 250 mil de salários mensais."
Segundo Tita, a união do elenco influenciou na ascensão da equipe no returno. "Jogamos só pelo grupo, um pelo outro." Com a chegada do técnico João Avelino para suceder o gaúcho Ernesto Guedes, o time subiu de produção e terminou o campeonato com 37 pontos, em 9º lugar entre os 20 participantes.

Depois do trágico acidente, Tita recomeçou uma nova vida. Morando em São José dos Campos passou a se corresponder com Cleusa Maria Malerba, de Rio Preto, antiga namorada da época do América. Casaram-se em 10 de junho de 2000 e desde então moram na Vila Ercília. Ele ainda deu aulas numa escola de futebol da Secretaria Municipal de Esportes e foi instrutor de auto-escola, mas hoje está aposentado. A mulher, Cleusa, é telefonista aposentada. Os filhos do primeiro casamento, Thiago, 20 anos, e Thayara, 19, moram com a avó materna em Belo Horizonte. Tita ainda tem outra filha, Jéssica, de 19 anos, fruto de um relacionamento extraconjugal que teve com uma mulher em São José dos Campos.

Do Galo para a Seleção campeã de 81
Washington Luiz Cassemiro nasceu em Belo Horizonte no dia 28 de agosto de 1960 e ganhou o apelido ainda na infância. "Minha irmã caçula (Tânia) não sabia pronunciar meu nome e passou e me chamar de Tita." Ele começou a jogar como ponta-direita e armador do dente-de-leite do Atlético-MG em 1º de setembro de 1974, levado à Vila Olímpica atleticana pelo irmão William e pelo técnico Zé das Camisas. Atuou nas categorias de base do Galo até 1979, quando foi promovido ao time principal pelo técnico Carlos Alberto Silva para substituir Vaguinho, ex-Corinthians. No profissional do Atlético-MG atuou em 123 partidas e marcou 23 gols. "O mais bonito da minha carreira foi na goleada de 5 a 0 contra o América-MG em 85, quando invadi a área em velocidade, driblei uns cinco adversários e chutei por cobertura", recorda. Foi heptacampeão mineiro (1978 a 1983 e 1985) e campeão da Copa Sul-Mineira (1984). No dente-de-leite do Atlético-MG conquistou o estadual e a Taça São Paulo, ambos em 1974. Também foi hexacampeão mineiro e campeão da Copa São Paulo de Futebol Júnior (sub-20), em 1980.

Convocado pelo técnico Telê Santana para defender a Seleção Brasileira de Novos, Tita foi campeão do Torneio de Toulon, na França, em 1981, atuando ao lado de feras como o centroavante Careca, o zagueiro Mozer, o lateral-direito Paulo Roberto, entre outros. A diretoria atleticana o emprestou ao América de Rio Preto para o Paulistão de 1983 e ao América Mineiro para o estadual de 1986, quando foi eleito pela rádio Itatiaia o melhor ponta-de-lança do campeonato e recebeu o troféu "Guará". Ficou vinculado ao Galo até 17 de janeiro de 1988, quando acabou vendido ao São José, onde foi vice-campeão paulista e vice do Brasileiro da Série B, ambos em 1989. No estadual, perdeu a decisão para o São Paulo, e no nacional, morreu na praia diante do Bragantino, do técnico Vanderlei Luxemburgo. Ainda jogou no Joinville, Ceará, Vila Nova de Nova Lima (MG), ASA de Arapiraca e Oriente Petrolero, de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, onde disputou a Taça Libertadores de 1995 e pendurou a chuteira. "Tinha assinado um contrato de um ano e meio, mas rompi depois de seis meses", informa. "Meus filhos eram pequenos, começaram a falar castelhano e não sabiam português, além dos costumes do povo boliviano serem bem diferentes dos nossos, então, decidi parar."


América 1 x 1 Palmeiras


América
Valô; William (Brasinha), Vantuir, Jorge Lima e Daniel; Ademilson, Paulinho Criciúma e Toninho; Tita, Roberto Biônico e Mazola (Babá). Técnico: Ernesto Guedes.


Palmeiras
João Marcos; Perivaldo, Luis Pereira, Vagner Bacharel e Carlão; Rocha, Cléo (Barbosa) e Carlos Alberto Borges; Jorginho, Enéas e Esquerdinha (Carlos Henrique). Técnico: Rubens Minelli.

Gols: Enéas aos 12 e Paulinho Criciúma aos 20 minutos do 1º tempo. Juiz: José de Assis Aragão.
Renda: Cr$ 7.831.800,00.
Público: 11.233 pagantes.
Local: Mário Alves Mendonça, sábado, 16/7/1983, pelo 1º turno do Paulistão, na estréia de Tita no América.




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