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04/12/2009 - "Socratistas" e "Ronaldistas"

Sempre morei ou no centro da cidade ou perto dele. Numa das minhas casas, nos anos 80, eu via a numerada e parte do Tobog do Pacaembu da janela de meu quarto. Qualquer gol eu escutava um segundo antes do narrador do rdio (Osmar Santos, Jos Silvrio ou Fiori Gigliotti) gritar.

Como era barato o ingresso, eu assitia muitos jogos de todos os times no Pacaembu. Inclusive as deliciosas disputas entre 4 equipes pelo acesso ao ento importante Paulisto.

S abdicava das idas ao Paulo Machado de Carvalho para fazer a viagem com o Jd. Colombo at o Morumbi toda semana. As vezes andava at o Anhangaba para embarcar no CMTC azul, o "buso" que quase ningum pagava, e fazia o trajeto mais rpido, sem paradas, pela 9 de Julho.

Naquela poca, est claro, todo corintiano era "socratista".

No importava para os alvinegros da poca se as estrelas estavam em campo. Nem se havia chances tcnicas de ttulo. Era o Corinthians e a torcida. E isso representava tudo para quem amava a agremiao.

Da periferia, na poca "mais distante", pois as linhas de metr eram menores, dezenas de milhares tomavam os bairros no entorno do Pacaembu fazendo algazarra de todos os tipos.

Da festa baguna. O mesmo ocorria dentro do estdio. Ningum era punido por aprontar. Mas ningum levava bombas e armas de fogo ao campo de futebol.

A torcida do Corinthians na arquibancada sem cadeiras cantava, cantava, cantava e Cantava!

Na poca, quando s havia "Socratistas", o corintiano jamais diria ou pensaria:

"Hoje o Scrates est machucado. O time no tem mais chance de ttulo. No vou ao Pacaembu torcer pelo Timo".

Isso no existia. Repito: se tratava da festa chamada Corinthians, seja qual fosse o placar do jogo, escalao ou chances de conquista.

S uma coisa era radicalmente exigida pelo corintiano. Garra! E muita!

Cabiam 70 mil no Pacaembu. Nada de de proibio de bebidas, faixas, bandeiras e intrumentos musicais.

Os anos passaram e o cenrio mudou: O Corinthians montou grandes times, ganhou titulos nacionais, e acostumou "mal seu torcedor". A importncia de cada competio tambm mudou.

E apareceu outro tipo de conrintiano.

O "Ronaldista".

Antes dos chiliques, crises e exploses de dio, deixo claro que no h melhor ou pior, certo ou erradoCada indivduo tem sua forma de viver a paixo.

Ambos os lados so bons, corintianos de verdade e esto certos.

Isso normal. No meio de milhes de pessoas, como na nao alvinegra, a maneira de sentir e curtir a paixo difere de acordo com o corintiano. H quem cobre mais ou menos. O mesmo vale para exigir dedicao, tamanho de expectativa, ira, tristeza, alegria

O corintiano "Ronaldista" exige coisas diferentes do corintiano "Socratista". outra relao.

Ele quer craques em campo, ttulos, a Libertadores questo de vida ou morte, tal qual a construo de um estdio ou a posse do Pacaembu.

Isso no significa que um necessariamente mais fantico que seu companheiro de torcida. Intensidade de amor pessoal, no se define por preferncia ou marca.

Mas d para notar que o "Socratista" aguardava a hora de estar perto do Corinthians e isso era quase tudo, enquanto o "Ronaldista" decide, baseado no momento, se vai ao jogo ou no, alm de no admitir derrotas importantes.

O "Socratista", para que fique ainda mais claro, adora o Ronaldo, pois ama o bom futebol e se orgulha de ter um atleta de tal nvel no time, em especial o atacante que se identificou com a camisa do time.

A diferena que a motivao para ir ao estdio no depende de ter Ronaldo ou de disputar algo.

Ser "Ronaldista" ou "Socratista" tambm no questo de idade. Conheo adolescentes de comportamente "socratista" e adultos que viveram o perodo do Magro e so "ronaldistas".

O "Socratista" no admite preferncia por Palmeiras no clssico contra o prprio time para evitar o ttulo do So Paulo. E nem cogita a possibilidade do time se empenhar pouco porque outras equipes podem ser beneficiadas.

O "Ronaldista", mais apegado aos feitos da equipe, at torceu contra seus jogadores diante do Flamengo.

Para o "Socratista", tirante os muito jovens, o Palmeiras o maior adversrio.

O "Ronaldista" no admite, pois faz parte do seu discurso padro, que o prazer de ganhar do So Paulo e chegar mais longe nas competies que o tricampeo do mundo supera a sensao de fazer os 3 pontos contra qualquer outro time.

Eis os dois "partidos futebolsticos corintianos", "Socratistas" e os "Ronaldistas", unidos pelo amor ao Sport Club Corinthians Paulista.



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