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19/11/2009 - Brasil X Uruguai: Um Jogo de Futebol Inesquecível

Aquele 16 de julho amanheceu chovendo. Mas eu nem queria saber como estava o tempo.Era domingo e o Brasil jogava à tarde a partida final da Copa de 1950 contra o Uruguai. A festa estava no ar. As rádios da minha cidade, Natal, tocavam músicas já festejando a Taça. Era domingo e à saída da Igreja, ficamos conversando como seria a comemoração da vitória. Para completar, meu pai aniversariava nesse dia, e os amigos viriam para o almoço, enquanto esperávamos a hora do jogo. O locutor (chamava-se assim naquele tempo), da Rádio Nacional, a mais potente do Brasil, repetia discursos de políticos, de candidatos à Presidência, chamando a seleção de campeã do mundo., dizendo que o universo se curvaria à indiscutível qualidade do futebol brasileiro. Não me lembro se o locutor era Jorge Cury ou Antonio Cordeiro, mas sei que não se cansava de repetir o time do Brasil: Barbosa, Augusto e Juvenal, Bauer, Danilo e Bigode. Friaça, Zizinho, Ademir, Jair e Chico. Nada de esquemas, nada de 4-2-4 , nada de líbero. Era apenas o Brasil, a seleção campeã do mundo por antecipação.



O retrospecto era impressionante: 4 x 0 no México, 2 x 0 na Iuguslávia, 6 x 0 na Espanha, 7 x 0 na Suécia. Que importava o 2 x 2 contra o"ferrolho" da Suíça, no Pacaembu? Aquilo fora um acidente de percurso. A copa já era nossa e mostraria ao mundo o maior Estádio do planeta, o Maracanã, construído em tempo recorde.



Naquele time, Ademir era meu ídolo. Na escola, quando minha classe jogava, eu dizia que jogava como o Ademir. No meu time de futebol de botão, Ademir, o número 9, recebia um tratamento particular, pois eu o encerava com parafina. Na minha imaginação de menino, Ademir tudo podia, tudo resolvia e tinha certeza de aquele deus no campo de futebol arrasaria o Uruguai.



O jogo começa e nada de gol. Em torno do rádio, a minha família, os amigos do meu pai, esperavam um gol do Brasil a cada instante. Um amigo de escola havia me dito que num bolão de apostas, colocara Brasil 9, Uruguai 0. Terminou o primeiro tempo e a vitória já estava assegurada. Era só esperar. No início da etapa final, Friaça faz 1x0 para o Brasil. Minha casa vira uma festa. Seu Carmelo, amigo da família, faz um discurso emocionado. E pergunta: " Já imaginaram como o mundo vai admirar o Brasil?"



Aos 27 minutos, Schiaffino, um uruguaio com nome de italiano empata o jogo. Nada a temer. Com o empate, a Taça também é nossa. Ninguém perde a alegria, mas se pressente que a goleada não viria.



Alguns minutos mais tarde, Gigia emudece o Brasil. O locutor da Rádio Nacional tem a voz embargada. Diz que o Maracanã todo chora, mas que ninguém deixa o Estádio. O sofrimento compartilhado é menos sofrimento. O jogo termina, o narrador anuncia que jogadores uruguaios consolam jogadores brasileiros, num gesto civilizado. Penso em Ademir. O que pensaria meu ídolo? Por que não se transformou no vento e empurrou a bola para o centro da trave de Máspoli, goleiro do Uruguai? Por que meu deus infalível virou um ser humano?



Lá fora, a chuva que havia amenizado durante o jogo, voltou a cair com força. A festa de meu pai acabou em choro. Ninguém quis jantar, o mundo parecia menor. Na minha cama, tentando dormir, eu só pensava naquele jogo. Por que Deus pregava uma peça daquela nos humanos? Por que Ele, tão bom, também criava Gigia? Não consegui dormir. Aquela chuva, aquela festa, aquele gol do Uruguai se misturavam na minha dor. Muitos anos depois, li um livro de Paul Nissan, escritor francês, que começava assim: "Eu tinha vinte e um anos. Não me venham dizer que essa é a mais bela idade do homem.!" E lembrando daquele 16 de julho de 1950 eu pude parafrasear Nissan e dizer: " eu tinha nove anos. Não me venham dizer que essa é a mais bela idade do homem. Nessa idade houve um jogo entre o Brasil e o Uruguai na minha vida".


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