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21/07/2011 - Casos do Futebol - O Goleiro da Faixa Roxa

Numa tarde de domingo de 1914 no pequeno estádio (grande na época) das Laranjeiras, o jogo estava atrasado. O público elegante – homens com palhetas na cabeça e ternos bem talhados, camisas de colarinho duro; senhoras com chapéus vistosos e vestidos as vezes longos – começava a se impacientar.

No vestiário do Fluminense uma discussão se tornava interminável.

- Como é que vocês querem jogar sem goleiro? É melhor cancelar a partida do que dar vexame!

O adversário do Fluminense naquela tarde se perdeu no tempo, mas o argumento de que cancelar seria pior do que se mandar embora a pequena multidão que se espremia nas arquibancadas, o que certamente geraria um grande tumulto, também era compreensível.

Foi quando um amigo do presidente disse:


- Acho que vi o Marcos na social. Será que ele não toparia jogar?

- O Marcos é goleiro do América, não vai querer… – ia argumentando um jogador, quando foi interrompido:

- Não, parece que ele saiu do América. Brigou com o presidente.

Um dos dirigentes do Fluminense acompanhado do "amigo" do presidente saiu pela porta do vestiário debaixo de palmas dos torcedores que achavam que "finalmente" o time ia entrar em campo.

Avistaram Marcos Carneiro de Mendonça e o dirigente fez o convite:

- Marcos, quer jogar pelo Fluminense?

- Quando? – gritou lá de cima da social o goleiro de 1,87 metro de altura, 19 anos, boa pinta, e que mexia com o coração das mocinhas.

- Agora, estamos sem goleiro – gritou o diretor de volta.

- Estou sem uniforme, não vai dar.

O público da social acompanhava o inédito diálogo com bom humor e começou a gritar

- Vai, sim! Vai, sim!

- A gente te dá um uniforme – gritou o dirigente (a história não registra o nome do dirigente. Alguns dizem que não foi um dirigente e sim o capitão do time, Walfare).

Marcos pulou a cerca que separava a social da pista de atletismo e entrou no vestiário sob os aplausos de toda a arquibancada social do Fluminense.

Alguns minutos depois ressurgiu com o time segurando o calção com as mãos para que ele não caísse.

Viu uma moça logo na primeira fila da social com uma fita roxa no chapéu,

e perguntou:

- Será que a senhorita me emprestaria essa sua faixa para que eu possa prender o meu calção? Devolvo depois do jogo!
Toda feliz a mocinha cedeu a faixa que Marcos passou pelas passadeiras do calção (naquele tempo o elástico ainda não tinha sido inventado).

A partir desse jogo Marcos Carneiro de Mendonça passou a jogar com uma faixa roxa prendendo o calção. Jogou por 9 anos no Fluminense – onde foi tricampeão carioca 1917/18 e 19. Antes disso tinha sido campeão pelo América, em 1913, com apenas 14 anos de idade.

Outra história a respeito de Marcos é que ele defendia o gol do Fluminense com um uniforme todo branco, que ele nunca sujou, devido a sua colocação perfeita.
Nesse mesmo ano de 1914 foi convocado para a primeira seleção brasileira que enfrentou o time do Exerter City, da Inglaterra, por 2 a 0, e permanece até os dias de hoje como o goleiro mais jovem a defender a seleção. Foi bicampeão sul-americano em 1917/19 com a seleção.

Jogou 15 vezes pela seleção, até 1923, quando se retirou devido a uma contusão muito séria. Casou com a poetisa Ana Amélia, fundadora da Casa do Estudante do Brasil, e tornou-se um historiador famoso, com uma valiosíssima biblioteca, que ocupava as quatro paredes de uma imensa sala com três andares de altura, no Solar dos Abacaxis, no Cosme Velho, no Rio de Janeiro, onde sempre morou até sua morte, no dia 19 de outubro de 1988, aos 94 anos.

Foi presidente do Fluminense e foi bicampeão carioca em 1941/42.

Esse relato, mostra bem como era o clima do futebol na época. Parecia ter mais charme e elegância, em um tempo em que o dinheiro não tomava decisões.


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