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28/12/2010 - Lembra dele? Wilsinho, ex Portuguesa e Timo concede entrevista

Na foto Wilsinho mostra um de seus albuns contendo um pouco da sua historia. S na Portuguesa foram 8 anos.



EDUARDO VERDASCA: Voc veio da Vrzea, em um tempo que revelava grandes jogadores.

WILSINHO: Justamente, pra ns que jogvamos nesta poca, a Vrzea era uma grande escola. Sair de um time de Vrzea para um Profissional mostra o quanto ela era boa. Alm de mim, outros atletas fizeram esta mesma trajetria. Hoje falamos que tem muito clube no futebol que joga Campeonato Paulista, Brasileiro na Srie B, e no tem um time com a mesma qualidade de um das Vrzeas de antigamente. Surgi, na realidade, de um campeonato semelhante, a Copa Kaiser, que era patrocinado por uma marca de cigarro. Foi da que acabei indo direto pra Portuguesa.


MAURCIO SABAR: Quando voc comeou na Portuguesa no final dos anos 60, quem eram os jogadores que voc atuou junto naquela poca?

WILSINHO: Quando eu cheguei, a Portuguesa estava fazendo uma renovao no seu Quadro Profissional, cheguei a treinar um pouco com o Ivair, que acabou indo para o Corinthians. Tinha o Z Maria que tambm foi embora. Havia o Edu Bala que foi para o Palmeiras junto com o Leivinha. Cheguei a treinar com o Coutinho j em final de carreira. Teve o Lorico, que foi um grande jogador e pessoa, que me ajudou muito no inicio. Tinha tambm o Ratinho. A Portuguesa sempre na poca tinha 15 ou 20 jogadores que, pelo menos a metade, eram trazidos da Categoria de Base.


MAURCIO SABAR: Era um celeiro de craques.

WILSINHO: Justamente, s que no conseguia segurar estes jogadores, pois valorizavam muito e ela acabava cedendo. A Portuguesa era assim, fonte alimentadora do Palmeiras, Corinthians e So Paulo, sendo tambm que muitos jogadores acabavam indo pra Portugal, Blgica e Equador.

MAURCIO SABAR: Depois destes jogadores citados, voc fez parte de uma grande equipe da Portuguesa, jogando junto com Xax, Ratinho, Badeco, Baslio e do grande Enas. O que voc tem a dizer sobre este grande time, alm do Enas?

WILSINHO: Era um time que praticamente a metade dele vieram das Equipes de Base. Havia um goleiro chamado Carioca. Veio Arenghi, subiu Isidoro, Cardosinho, Enas, eu, Fabinho que infelizmente faleceu, tinha Tadeu, Vlter, Roberto Bacur que acabou indo pra Feitosa de Belm do Par, morando hoje l. Difcil voc ter um time Base, quando no ganhamos nada l, porque sempre tiravam um jogador, desmontavam e colocavam outro. Neste poca de 70, subiram 9 jogadores. Hoje, pelo que tenho visto, somente o Santos est conseguindo fazer o que a Portuguesa fazia antigamente.


MAURCIO SABAR: Qual a lembrana que voc tem deste famoso ttulo de 73 decidido com o Santos? Mesmo sendo dividido, acredito que tenha sido uma conquista inesquecvel pra voc como pra os demais jogadores e torcedores da Portuguesa.

WILSINHO: Se comenta muito sobre a diviso deste ttulo, mas ele tem um aspecto saudosista muito bom, porque foi em uma poca e transio, tanto do time, diretoria e treinador, porque tinha sado o Cilinho, chegando o Oto Glria. Ele fez uma transformao e ajustou alguns jogadores. Pra mim foi o grande treinador que trabalhei, sendo que quando ele chegou na Portuguesa, eu estava indo embora para o Amrica de So Jos do Rio Preto e naquela semana ficou aqueles ajustes, fez alguns coletivos e acabei treinando em uma equipe de baixo e veio conversar comigo, perguntando o que est acontecendo comigo. Eu falei que havia um desacerto e vou ser emprestado. Ele disse pra eu no fazer nada, que iria falar com o presidente, o Oswaldo Teixeira Duarte, talvez um dos maiores presidentes que a Portuguesa j teve, sendo que os outros no conheci. O Oto Glria falou pra ele que precisava de mim como jogador, tinha um esquema na cabea e que eu encaixava bem e acabei fazendo um contrato de trs meses de risco. Acabei no indo pro Amrica, a transao j quase pronta foi cancelada.



MAURCIO SABAR: Voc era um ponta-esquerda veloz, driblador e ia at a linha de fundo, como era comum nos pontas do passado. Quem eram os grandes pontas-esquerdas da poca?

WILSINHO: Eu acho que todo o grande clube tinha um ponta. Mas o meu grande dolo, concorrente e amigo era o Edu, do Santos. Ele era fantstico, tinha uma admirao muito grande por ele. No Palmeiras tinha o Nei, o Corinthians teve o Eduardo que faleceu e Aladim, e o So Paulo tinha o Paran. Sem contar os do Rio, Minas, do Sul e do Norte. Eram jogadores muito bons. Quem estava jogando no se machucava de jeito nenhum, pois sabia que se isso acontecesse, tinham reservas bons, s vezes at superiores ao titular. Hoje no vemos isso.

MAURCIO SABAR: Alm dos pontas-esquerdas, haviam tambm os laterais-direitos. Fale sobre os que te marcavam.


WILSINHO: O Palmeiras tinha o Eurico, o Corinthians tinha o Z Maria, o So Paulo tinha Diego Forlan e o Santos tinha o Carlos Alberto Torres. Pra voc ver como eram os times. E s falando em So Paulo, pois os outros Estados tambm tinham. Aquela super mquina do Cruzeiro era brincadeira, com o Dirceu Lopes, Tosto e o Wlson Piazza. Todo time tinha os seus 11. Era difcil. Havia aquela rivalidade. Era difcil vender para o adversrio. A Portuguesa chegou uma poca que brecou e queria segurar. Formava jogador, Corinthians levava o lateral e o Palmeiras levava o ponta. A ela manteve o time por uns quatro ou cinco anos. Eu joguei 8 anos no time e chegou uma poca que ia ser trocado e no saa. Eu perguntava quem ia ficar no meu lugar e diziam que continuaria. Voc via os seus amigos indo embora, o Baslio, meu grande amigo, indo para o Corinthians, sendo que foi um dos responsveis pra minha ida para l, sempre batalhando pra me levar e a Portuguesa negando. Acabou dando certo e fui para o Corinthians.


MAURCIO SABAR: Em 73 foi campeo junto com o Baslio, Badeco e Enas. Copa de 74 estava chegando. Parece que voc foi convocado.
WILSINHO: Fui relacionado. Aquela Seleo de 74 lembrou um pouco a baguna de 66. A Portuguesa foi jogar no Rio de Janeiro contra o Fluminense e Flamengo, ganhando os dois. Fomos, o Enas e eu, um programa de televiso e na ocasio o Joo Saldanha disse que deveramos ser convocados. Pelo menos estaramos entre os 22. Acabamos indo pra So Paulo. Na poca da convocao, fui relacionado entre os jogadores. S que na hora de convocar, o Zagallo preferiu o Dirceu, pois achava que ele era mais verstil, estilo de jogo igual ao dele, como ponta e meia que ele gostava e adotava. Fiquei de fora na relao dos que poderiam ser chamados caso machucasse algum. O Enas foi convocado e durante os treinos foi cortado. No adiantava voc ser um bom jogador, pois a Portuguesa no tem fora na Federao Paulista e na CBF. Os jogadores ficavam em segundo plano. A Portuguesa sempre teve grandes jogadores, at hoje tem, no como antigamente, isto um fato que deixou aquela pequena mgoa que voc tem da carreira, mesmo porque nem tudo um mar de rosas e acontecem algumas decepes.


MAURCIO SABAR: 1974 se foi. Estamos em 75. E a Portuguesa mais uma vez est decidindo um ttulo. Ela nos anos 70 era sempre forte e um time de chegada. O que aconteceu em 75, que vocs desta vez no chegaram?
WILSINHO: O mesmo que aconteceu em 73, nos pnaltis. Eu hoje at brinco, na poca no, que o ttulo de 73 foi importante porque todo mundo fala que samos correndo do campo, o Oto escondeu todo mundo, mas na realidade sabia que se eu acertasse a trave ia dar aquela confuso e acabou dividindo. Em 75 a mesma coisa e eu era o capito da equipe nas vezes que o Badeco no jogava. O Dic bateu e outro que no me lembro que acabou errando contra o So Paulo. Fui bater o pnalti tambm e errei. Eu sempre falo nas entrevistas que dou que quando cheguei em casa, desta vez no acertei na trave, a bola sumiu, meu pai brincando se acharam a bola, pelo jeito ela deve ter cado fora do estdio! Risos ...
Mas a Portuguesa chegou. Em 74 deixamos de ir pra final porque perdemos um jogo importante em Bauru, contra o Noroeste, coincidncia do destino foram os dois jogadores que a Portuguesa dispensou, o Rodrigues ponta-esquerda e o Lorico, que foram os grandes jogadores daquele dia, estvamos numa tarde ruim, tudo de errado aconteceu naquele dia e o Corinthians acabou indo pra final contra o Palmeiras. Na verdade era a Portuguesa que ia pra esta final.


MAURCIO SABAR: Em 76 voc foi para o Juventus.
WILSINHO: Em 76 eu tive mais um ano na Portuguesa. Era um rebelde sem causa com 26 anos. Porque eu via todo mundo todo ano, vai reforar e comprar, saa um e outro, sendo que eu continuava na ponta-esquerda. A fiquei meio rebelde, fiz algumas trapalhadas e me desinteressei um pouco. Hoje, com a idade que tenho, reconheo estas coisas e acabei tendo um desentendimento com o presidente e fui embora para o Juventus junto com alguns jogadores, na troca com o Tat que hoje auxiliar tcnico do Muricy e chegou outro goleiro. Foi uma troca de jogadores, como fez o Fluminense com o Corinthians.


EDUARDO VERDASCA: Voltando na parte de decises por pnaltis, muita gente lembra da deciso, como se continuasse o Santos venceria. Mas quando lembramos do tempo normal, houveram algumas injustias que poderiam ter levado a Portuguesa ao ttulo sem a deciso por pnaltis. Ningum se lembra disso.

WILSINHO: Correto! Houve algumas chances dos dois lados. O Santos tambm teve bola na trave com Pel. Ns tambm tivemos bola na trave. Houve um lance do Baslio que acabou no sendo feliz na finalizao, sendo que a mesma sorte que teve no Corinthians no aconteceu na Portuguesa em 73. E tivemos o principal, que foi o gol do Cabinho anulado. Todo mundo fala que no lembra e lamentavelmente talvez no tivesse sido visto. A televiso naquela poca no era to moderna como hoje, acho que no existe imagem daquele jogo, mesmo porque ningum consegue passar o jogo inteiro, sempre passa os lances dos pnaltis, mas ns tivemos um gol legtimo anulado pelo Sr. Armando Marques. A Portuguesa teria vencido normalmente.


EDUARDO VERDASCA: Era uma poca que a Portuguesa tinha uma torcida muito grande. Tivemos um Morumbi com muitos torcedores.

WILSINHO: Eu tenho registrado em torno de 118 e 120 mil pagantes. Na poca evidente que o Santos tinha mais com o Pel. Mas a Portuguesa tinha a sua torcida que comparecia e sou contra a mudana de nome do time, pois desde que voc tenha time, a torcida comparece. Eu acho que o nome no importa, pois quando voc ganha e tem um bom time, jogvamos com estdios cheios no Canind, Pacaembu e Morumbi. Muita gente na final foi torcer pra Portuguesa, mesmo quem no torcia pro time, mas d pra ver na poca que ela sempre teve bons times.



Eduardo Verdasca, Wilsinho e Mauricio Sabar . Uma tabelinha muito bem feita.


MAURCIO SABAR: Depois de encerrar a carreira voc trabalhou como tcnico de futebol Masculino e tambm Feminino. Como foi esta experincia esta experincia com as mulheres no futebol, alm tambm do masculino?

WILSINHO: Quando assumi o Masculino Infantil, foi depois do Juvenil que j havia um treinador. Fiquei no Infantil, que nunca eu havia trabalhado. Seria o incio de uma carreira. S que entrei de manh e fui demitido tarde, porque eu tinha aquela idia revolucionria, pois voc tem que ter as coisas pra realizar um bom trabalho. Eu cheguei na Portuguesa e no tinha bola, chuteira e camisa. Com podia trabalhar, com quase 90 jogadores, podendo usar somente usar 22? Posso trabalhar no mnimo com 30. No vai dar. Eles acabaram no gostando que pedi para o roupeiro colocar as coisas velhas dentro de um saco, no dei o treino e joguei tudo fora. Chamaram-me tarde e disseram que no dava pra eu continuar como treinador, dizendo que joguei tudo fora. Eu respondi que s limpei. Depois entendi, porque a Portuguesa teve uma fase ruim com uma m administrao, no deixando nada pra Lusa. Ela estava errado de baixo pra cima e de cima pra baixo. No tinha nada na Base e nem no time principal. Eu achava que voc tem que dar condies de a pessoa desenvolver o que sabe, com uma chuteira, bola em condio, portanto no concordava com aquilo. Acabei voltando e montei uma bela Equipe Infantil, saindo alguns jogadores que esto rodando por a. Quanto ao Feminino, muitas jogadoras da Seleo Brasileira passaram comigo.



MAURCIO SABAR: Uma bela passagem pela Portuguesa. Tambm uma boa passagem pelo Juventus, jogando com Ataliba e outros jogadores de destaque. Chega 1979 e voc contratado pelo Sport Club Corinthians Paulista. Na poca havia um ponta-esquerda muito bom que era o Romeu Cambalhota. Fale desta sua passagem pelo Corinthians, do ttulo de 79 e como foi esta disputa sadia de posio com o Romeu?

WILSINHO: Quando sa da Portuguesa para o Juventus, este time formou uma grande equipe. Sempre do grande time da Portuguesa e do Juventus. O Corinthians acabou montando tambm um super time, com Z Maria, Amaral, Wladimir, Caapava, Baslio, Biro-Biro, Scrates, Palhinha, Geraldo, Vaguinho, Romeu e eu. Qualquer um que o treinador colocasse, estava tranqilo, pois tinha grandes jogadores. Eu fui para o Corinthians com 29 anos e super experiente. O pessoal falava que quando chegava aos 30 era hora de parar. Acabei jogando 3 anos e tive a felicidade de ser campeo em 79, o ano que cheguei. O Corinthians conquistou em 77, no ano seguinte foi o Santos em e79 ganhou novamente o Corinthians, sendo que teve uma paralisao no final do ano, houve briga do Matheus com a Federao e com o Palmeiras. O campeonato parou em Dezembro, voltando em Janeiro, eliminamos o Palmeiras e acabamos indo pra final decidindo novamente com a Ponte, com o Corinthians sendo campeo em 79. Joguei ainda em 80/81, quando voltei pra equipe do Juventus, jogando por mais 2 anos e encerrando a carreira.




EDUARDO VERDASCA: Estvamos falando dos ltimos anos, que a Portuguesa no teve mais aquela fase dos anos 70, houve um grande esquadro nos anos 50 e de uns anos pra c as coisas no andam to bem. A impresso que se d que a Portuguesa no se enxerga como um time grande.

WILSINHO: Teve uma poca que a Portuguesa foi considerada como o quinto clube de So Paulo. Ela perdeu o seu espao, no houve grandes investimentos nas Categorias de Base, teve um momento que ela foi crescendo e se solidificando como um clube grande. Sempre ficou naquele bloco. Ela abandonou a Categoria de Base. Se fizermos um retrospecto, depois da dcada de 70, podemos lembrar de Z Roberto, que foi embora. A Portuguesa tem um ou outro jogador. Um time que revelou Ivair, Leivinha, Baslio, Enas, eu, Edu e Z Maria, voc v que eram vrios. Hoje eu vejo o Santos fazendo este trabalho e o So Paulo resolveu ver que a soluo a Categoria de Base. Evidente que voc tem que mesclar os jogadores jovens com os mais experientes, pois voc tem que ter uma Base forte pra ser o alicerce dos que vem de baixo. E hoje a Portuguesa tem comprado jogadores que no vamos criticar. Cada poca tem sua poca. Eu respeito estas passagens. O jogador tenta fazer o papel dele. Talvez no seja o ideal, mas o clube o responsvel por aquele que ele forma e compra. Vejo muita gente despreparada trabalhar nas Categorias de Base, como professor de Matemtica. Uma vez falei com o diretor do Corinthians. Na CBF tem muito militar. Na arbitragem tem o Coronel Marinho. Tem coronel na Portuguesa e Desembargador no Corinthians. Falei para este Desembargador, que quem de segurana tem que cuidar disso, o militar precisa dar segurana ao povo e no se meter com jogador. J imaginou se me do um revlver? Faria bobagem. E quando eles vo para o futebol, tambm fazem bobagem. Eu no aceito interferncia como treinador, de pessoas que no so do meio e falam. Pra discutir contigo tem que ter conhecimento na escalao do time e isso prejudica muito. Sabemos das mutretas no futebol, empresrio que passa pra frente jogador, diretor que ganha comprando bonde. Quem paga o clube e a torcida. Tudo passa, mas o clube fica.


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