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23/03/2010 - Um jogo inesquecivel: A final da Copa Sul-americana de 1946

Nunca a rivalidade entre brasileiros e argentinos esteve to acesa como na final do campeonato sul-americano de 1946. Foi uma das partidas mais dramticas da histria do futebol.

Buenos Ayres era uma festa naqueles dias midos e abafados do vero de 1946. A Segunda Guerra Mundial terminara e, enquanto a Europa contava seus mortos e reconstrua cidades arrasadas, a Argentina desfrutava de momentos de grande prosperidade. E o futebol refletia o quadro geral da nao. Forte, competitivo, rico e cheio de prestigio, poderia sem susto ser colocado entre os melhores do mundo. A gerao de Moreno, Pedernera Lostau. Labruna, Perucca, Sastre, Di Stefano, Carrizo e tantos outros ainda hoje lembrada como a melhor da histria do futebol argentino.

Apesar de tudo, os jogadores brasileiros desembarcaram em Buenos Ayres para disputar mais um sul-americano, e no estavam preocupados exatamente com a tcnica e a categoria que eles viam nos argentinos. O receio era outro. Trs meses antes, num jogo entre as duas selees realizada no Rio de Janeiro, num lance casual entre Ademir e Batagliero, o zagueiro argentino teve sua perna fraturada. A medida que se aproximava a final do sul-americano de 1946, em Buenos Ayres, a imprensa argentina acusava os brasileiros de violentos, principalmente Zz Procpio. Os jogadores ouviam nas ruas, nas raras vezes que saiam do estdio do River Plate onde estavam concentrados e passaram a encar-las com seriedade. Oficialmente, a Argentina tinha orgulho se receber os brasileiros e considerava o acidente do Rio de Janeiro como um episdio superado, apesar da derrota de 3x1. Para mostrar sua boa vontade, antes de comear o jogo o capito Soloman ofereceu uma cesta de flores ao veterano Domingos da Guia, capito brasileiro. Mesmo assim, antes de inicio da partida, sob os aplausos dos torcedores, Batagliero com a perna gessada, desfilou ao redor do campo numa encenao montada para intimidar os brasileiros.

Quando a bola comeou a rolar, entre os anfitries, Fonda, Strembel e De La Mata, no poupavam as canelas de ningum. Os visitantes no se intimidavam e Zz Procpio e Chico, indiferentes aos clamores de muitos torcedores que pediam, em coro, suas cabeas, estavam longe de qualquer disposio de fugir do pau. Batiam tambm. Futebol que bom no havia, e Jair da Rosa Pinto no se sentia muito a vontade. Gostava de um jogo mais sereno onde pudesse mostrar toda sua habilidade. O remdio era evitar as provocaes, pois o negocio poderia acabar mal. Entretanto, aos 28 minutos do primeiro tempo, uma bola espirada na intermediria sobrou entre Jair e Solomon. Por um instante, Jair hesitou, mas ao perceber que o zagueiro entrava de carrinho para ganhar a jogada de qualquer maneira, decidiu levantar a perna e virar o rosto num gesto de defesa. O choque foi inevitvel com a perna de Solomon fraturada pela sola da chuteira de Jair.

Foi o inicio de uma tarde de loucura e desespero. Com Salomon no cho, Fonda partiu para cima de Jair. Chico, de sangue quente, decidiu ajudar o companheiro e segurou Fonda pela camisa. Mas, nesse momento, Strembel o derrubou pelas costas. Dois, trs, quatro outros argentinos se juntaram para massacrar Chico que estava sozinho e cercado pelos inimigos. O brasileiro era valente e sabia brigar. De repente, porm, surge uma carga de cavalaria. Chico ps as duas mos no rosto, por instinto de defesa, mas no conseguiu evitar que os golpes de sabre dos soldados o atingissem nas costas, nos ombros e nos braos. Sua sorte que um rbitro careca, forte, grando e corajoso, agente da Policia Especial do Rio de Janeiro, invadiu o campo e abriu caminho entre os cavalos, os soldados e os jogadores argentinos. Era Mrio Vianna. Ele nunca soube como conseguiu carregar o Chico at o vestirios do Brasil.

A tarde do desespero no terminou ali. Aproveitando-se da confuso, umas 500 pessoas pularam para o campo. A policia teve que atirar bombas de gs, mas s a muito custo elas saram dali. No vestirio brasileiro ningum queria voltar para do gramado. Entretanto, o chefe do policiamento no estdio procurou Luis Aranha, dirigente da seleo e declarou para quer todos ouvissem "No podemos nos responsabilizar pelas reaes da torcida se sua equipe no voltar para o jogo imediatamente". Luis Aranha ensaiou um protesto, mas acabou concordando. Lentamente a seleo voltou para o jogo. Chico no voltou, tinha sido expulso e estava muito machucado. Zizinho tambm no. Ademir entrou em seu lugar. No primeiro lance Ademir recebeu um soco. Evitando entrar nas divididas, os brasileiros deixou os argentinos marcarem dois gols e se sagrarem campees sul-americanos de 1946. O titulo conquistado fez a torcida comemorar e esquecer os brasileiros.

Por dez anos, as duas selees estiveram de relaes cortadas. A Argentina no veio para o sul-americano de 1949 nem a Copa do Mundo de 1950. O Brasil somente voltou a Buenos Ayres em 1956

Este jogo foi realizado no dia 10 de fevereiro de 1946 no Estdio Munomental de Nuez, em Buenos Ayres. O juiz foi Nobel Valentini do Uruguai que expulsou Chico do Brasil e De La Mata da Argentina que venceu por 2x0 com gols de Mendez.
Argentina jogou com Vacca. Salomon (Maranti). Sobrero, Fonda. Strambel (Ongaro), Pescia. De La Mata. Mendez. Pedernera. Labruba e Lostoau. O Brasil com Luiz Borracha. Domingos da Guia e Norival. Zz Procpio. Danilo e Jayme (Rui). Tesourinha (Lima). Zizinho (Ademir). Heleno. Jair e Chico.


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