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18/01/2010 - Entrevista com ele: O "Terrivel" João Carlos, zagueiro do Corinthians e Cruzeiro

A voz de João Carlos era quase imperceptível, do outro lado da linha. "Sabe o que é? Estou na casa do Maurício, em Novo Horizonte, e nenhum telefone celular funciona direito aqui", riu o ex-zagueiro do Corinthians, com um forte sotaque mineiro. Ao fundo, o ex-goleiro Maurício se distraía com a televisão.

A dupla que foi campeã mundial em 2000, pelo Corinthians, iniciou uma nova carreira após se aposentar. O técnico João Carlos convidou Maurício para ser seu auxiliar quando assumiu o comando do Poços de Caldas. Os dois seguiram juntos para o Democrata de Sete Lagoas, clube que revelou o ex-zagueiro para o futebol, e agora estão desempregados.

Enquanto procura trabalho, João Carlos passa o tempo contando histórias de sua juventude e dos tempos de jogador. O ex-servente de pedreiro fala com orgulho que foi companheiro do atacante Ronaldo quando estava no Cruzeiro. E lembra com ainda mais alegria de suas passagens pela seleção brasileira e da conquista do Mundial de Clubes. A única tristeza daquele torneio foi uma contusão, que impossibilitou o zagueiro de disputar a final contra o Vasco. Adílson Batista, atualmente técnico do Cruzeiro, ganhou a chance de entrar em campo no Maracanã.

GE: O que você está fazendo hoje?
João Carlos: Estou iniciando a minha carreira como treinador. O Maurício, ex-goleiro, virou meu auxiliar. É algo bem diferente de jogar, por isso começamos com os pés no chão, pegando experiência antes de alçar voos mais altos.

GE.Net: Quando surgiu a ideia de formar essa parceira com o Maurício?
João Carlos: Foi no Corinthians, mesmo. Nos treinamentos, já conversávamos sobre isso. Eu dizia para ele: "Maurício, quando me aposentar, vou ser técnico e quero você como meu auxiliar". A gente se uniu em 2007, né, Maurício? [João Carlos pergunta para o companheiro, que está ao seu lado.]
Maurício: Isso aí.
João Carlos: A minha cabeça ainda está boa [risos]. Fiz alguns estágios depois de parar de jogar, inclusive com o Nelsinho Baptista, porque o Maurício ainda estava em atividade no Noroeste. Quando recebi a primeira oportunidade, para treinar o Poços de Caldas, liguei para ele e fizemos valer o nosso acordo dos tempos de jogador. Mas estamos parados agora. Vim para a cidade dele [Novo Horizonte - SP] para começarmos a correr atrás de algum clube.

GE.Net: Vocês são muito assediados aí?
João Carlos: É bem legal receber esse carinho do povo. A cidade do Maurício é cheia de corintianos, e eles gostam muito de mim. As pessoas que me reconhecem sempre agradecem pelo que fiz no Corinthians. Fico feliz. Quando estou em Minas Gerais, os torcedores do Cruzeiro também me tratam bem. Mas acho que sou mais visto como o João Carlos do Corinthians, pois conquistei mais títulos lá.

GE.Net: O Mundial de Clubes foi o mais importante?
João Carlos: Um dos mais importantes. Os Campeonatos Brasileiros que ganhei também foram muito marcantes. E fui campeão da Copa América pela seleção brasileira logo na minha primeira oportunidade. Conquistar grandes torneios pelo seu país é um objetivo de qualquer jogador.

GE.Net: Você jogou com o Ronaldo no Cruzeiro e na seleção brasileira?
João Carlos: Fomos companheiros quando ele despontou no futebol. Conquistamos um Campeonato Mineiro juntos. Ontem mesmo, um amigo meu me perguntou como era o Ronaldo. Sempre digo que ele é exatamente a mesma pessoa que a gente vê hoje na televisão, simples e brincalhão. Infelizmente, perdemos contato, mas continuo sendo fã do Ronaldo. Ele se superou muito na vida, voltou a jogar quando ninguém mais acreditava e é um dos maiores artilheiros da história do futebol brasileiro.

GE.Net: Já esperava que ele fosse ganhar toda essa projeção internacional quando vocês treinavam juntos no Cruzeiro?
João Carlos: Não. Claro que ele tinha jeito para ser um grande jogador. Era até cotado para defender a seleção brasileira, mas chegou muito mais longe. Ninguém esperava.

GE.Net: O Wanderley Luxemburgo fez você também ficar conhecido no Brasil, com as convocações para a seleção brasileira e incentivando a sua transferência para o Corinthians. Temeu ficar marcado como "protegido" do treinador?
João Carlos: Reconheço que o Luxemburgo teve uma influência muito grande na minha carreira. Ele acompanhou meus jogos pelo Cruzeiro e me levou para a seleção. Também me deu essa chance no Corinthians. Vivi momentos marcantes ao lado dele. Não tenho problema nenhum em dizer isso.

GE.Net: Como recebeu a notícia de que iria para o Corinthians?
João Carlos: O presidente do Cruzeiro me dizia sempre que era um time da França que estava próximo de me levar. Depois que acertou com o Corinthians, ele me perguntou se eu tinha ficado triste. Respondi: "Claro que não. Fiquei ainda mais feliz, pois o Corinthians é um grande clube do Brasil e está montando uma equipe para brigar por títulos".

GE.Net: Mas o Corinthians também é um clube com muita pressão. As críticas de torcedores não te incomodavam?
João Carlos: Que nada. Vejo isso de uma forma bem tranquila. O que eu gosto no Corinthians é justamente o fato de os torcedores serem bastante atuantes. Eles acompanhavam a gente até nos treinamentos, pendurando bandeiras e gritando. Nos momentos de dificuldade, estavam no direito deles de cobrar. Eu falava para os meus companheiros: "Gente, quem quer jogar em uma equipe grande como o Corinthians precisa estar preparado para isso. A torcida só quer que a gente dê alegrias. Eles ajudam muito e podem reclamar nessas horas".

GE.Net: Com quem você conversava mais naquele time do Corinthians?
João Carlos: Tinha uma boa relação com todos, a começar pelo Maurício. Falava muito com o Dida também, pois jogamos quase sete anos juntos, entre Cruzeiro e Corinthians. Marcelinho, Vampeta e Rincón eram outros bons amigos.

GE.Net: Não havia desentendimentos entre esses jogadores mais renomados?
João Carlos: Sim, mas o diferencial do Corinthians era justamente funcionar dentro de campo. Fora, havia dois ou três jogadores que nem se cumprimentavam. A gente brigava muito, mas não levava nada disso para as partidas. Não existia essa história de um não passar a bola para o outro, como já vi em alguns lugares. Todo mundo se ajudava.

GE.Net: Qual foi a discussão mais ríspida que você presenciou?
João Carlos: Não lembro de nada especificamente agora. O que acontecia mais era discussão de jogo, que acabava indo para frente no dia a dia. Mas, como eu disse, isso não atrapalhava o time. Tanto é que fomos campeões mundiais em 2000 e as pessoas ainda falam disso 10 anos depois.

GE.Net: Como foi aquele torneio para você, que precisou marcar os jogadores do Real Madrid?
João Carlos: Jogar contra o Real foi ótimo. Aquele Hierro tinha falado um monte de besteiras, insinuando que o nosso time não era bom, que eles ganhariam com o pé nas costas. Eles estavam provocando principalmente o Edílson. Mas o Edílson acabou com o jogo, marcando dois gols e metendo a bola entre as pernas do tal do Karembeu. Falaram demais e deu nisso.

GE.Net: Por tudo isso e pelo fato de você estar machucado contra o Vasco, esse jogo foi mais marcante do que a final?
João Carlos: Claro que foi difícil enfrentar as estrelas do Real Madrid, mas o Vasco também tinha um time bom e fez uma partida muito nervosa contra a gente. Apesar das discussões com o Real, o Roberto Carlos conversava bastante com a gente no hotel onde estávamos hospedados.

GE.Net: Como você se sentiu depois de participar de toda a campanha do Mundial e não poder jogar a decisão?
João Carlos: Foi muito triste. Joguei todos os jogos, mas sofri um estiramento de grau 2 na coxa antes da final. Queria estar dentro de campo, pois a festa da torcida foi muito bonita. Ficar só torcendo não é a mesma coisa.

GE.Net: Assistiu à partida do banco de reservas?
João Carlos: Isso. E sofrendo à beça, até porque a final foi muito truncada, sem grandes chances para nenhum dos lados. Ainda acabou nos pênaltis para piorar. Dá até nervoso de lembrar.

GE.Net: Qual foi a sua reação quando o jogo acabou?
João Carlos: Eu queria correr, mas não conseguia por causa da coxa machucada. Dei dois passos para dentro do campo e quase caí. Só depois o pessoal foi me ver ali, comemorando sozinho. Aí, consegui abraçar alguns dos meus companheiros e festejar com a torcida. A festa foi muito legal, apesar das minhas limitações físicas [risos].

GE.Net: Você teve mais alguma decepção no Corinthians?
João Carlos: Tive uma tristeza grande. Em uma concentração, em 1999, vieram me contar que o Morais havia falecido de uma hora para outra, em um acidente automobilístico. Ele foi jogador do Cruzeiro e era meu técnico no Democrata de Governador Valadares. Devo tudo a ele, pois foi quem me levou para o Cruzeiro. Não acreditei quando me contaram da morte.

GE.Net: Não muito tempo depois, você passou pelo Cruzeiro de novo e acabou no Japão. A adaptação ao Oriente foi tranquila?
João Carlos: O futebol japonês já estava bem desenvolvido quando fui para lá, com vários jogadores estrangeiros nos times. Mesmo assim, sofri um pouco para me adaptar no início, já que precisava de um intérprete para ir a todo canto. Em relação à alimentação, era mais fácil. Os supermercados vendiam mais ou menos as mesmas coisas do Brasil.

GE.Net: Quando retornou para o futebol brasileiro, você defendeu Botafogo, Paysandu...
João Carlos: Peguei uma fase difícil no Botafogo. O time estava voltando da Série B e já havia começado a pensar no título carioca para se firmar, mas não conseguiu. Não saímos das últimas posições no Campeonato Brasileiro. No Paysandu, também foi complicado. O presidente deu muita atenção a empresários e fez várias contratações erradas, trazendo jogadores que não tinham capacidade. O clube acabou caindo de divisão.
GE.Net: Depois, um exame realizado pelo Ipatinga detectou que você estava com uma arritmia cardíaca.
João Carlos: Sempre fui um jogador muito saudável, vigoroso. Fiz uma série de exames em outros clubes que não identificaram nada, mas a gente fica com um pouco de receio.

GE.Net: Esses problemas que você enfrentou adiantaram a sua aposentaria?
João Carlos: Eu já vinha com essa ideia de parar desde que voltei do Japão. Podia ter encerrado a carreira antes. Para mim, foi algo tranquilo. A minha trajetória valeu a pena, tanto que o meu filho de 5 anos já fala para todo mundo: "Quero ser zagueiro, igual ao papai". Se eu dissesse que não sinto saudades de jogar, estaria mentindo. Mas não tenho aquela necessidade de entrar em campo, até porque estou vivendo uma nova fase da minha vida ao lado do Maurício.

GE.Net: O Maurício não vai querer seguir carreira solo como treinador?
João Carlos: A gente se dá muito bem. Ele sempre disse que queria ser auxiliar, para jogar as bombas para mim [risos]. Já estou acostumado com a pressão.




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