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29/09/2009 - Jorge de Freitas morreu de desgosto! por Fauzi Kanso

Nos anos 60, não me lembro bem se 64 ou 65, (ou teria sido antes ?) a Votuporanguense contratou Jorge de Freitas, um meia carioca que pelo potente chute logo foi apelidado de Jorjão. No meio dos jogadores profissionais ou dos amadores era tratado respeitosamente por "seu" Jorge.

Seu Jorge era muito educado, tranqüilo, pacato, de pouca conversa que andava sempre de cabeça baixa. Não gostava muito de brincadeiras, não participava dos carteados e nem mesmo das partidas de sinucas entre os companheiros de concentração.

Outro fato estranho: seu Jorge, ou Jorge de Freitas, jamais falou de sua família. Nunca disse se tinha ou não filhos. Não dizia se era casado, solteiro ou desquitado. Tempos depois de ter chegado em Votuporanga é que ele se amasiou com uma senhora no Bairro São João.

Seu Jorge era um meio campista atacante e, sempre, o responsável pelas cobranças de faltas. De cada dez faltas batidas, seguramente, duas eram convertidas. O chute era tão forte que "queimava" as mãos dos goleiros. Quando acertava a trave, a bola voltava no meio de campo.

Não festeja os gols
O impressionante era que seu Jorge não comemorava o gol marcado. Tão logo acertava o gol e a bola entrava, ele baixava a cabeça e voltava para sua posição inicial. Quando muito aceitava os cumprimentos dos companheiros.

Um dia, eu o entrevistei pela RÁDIO CLUBE DE VOTUPORANGA,e na entrevista fiz a pergunta que todos gostariam de fazer:

"Seu Jorge, por que o senhor não comemora e tão pouco agradece a torcida pelos aplausos a cada gol marcado ?"

"Quer saber de verdade ?", perguntou ele. "Essa mesma torcida que me aplaude hoje é a mesma que vai me vaiar amanhã. Todas as torcidas são iguais, no Rio, em São Paulo ou aqui em Votuporanga'.

Provocação direta
Num jogo válido pela Primeira Divisão, em Olímpia, no Estádio Teresa Breda, antes do início da partida, o goleiro Claudinei, do Olímpia, passou perto do seu Jorge e fez algum gracejo que ele não gostou.

Durante todo o primeiro tempo era visível a vontade do seu Jorge em marcar um gol. Em todas as faltas cobradas, por mais que ele caprichasse, a bola era arremessada longe. A cada tentativa errada o goleiro Claudinei dizia alguma coisa para infernizar Jorge de Freitas.

No intervalo ele pediu para ser substituído. Claro que o técnico, acho que Antonio Julião, não o tirou, afinal, Raimundo, Nelson, Flávio, Albano, Fifi e o próprio Jorge eram as armas que a Votuporanguense tinha para buscar a vitória tão almejada.

Na metade do segundo tempo mais uma falta a caráter para Jorge de Freitas. Ele ajeitou a bola demoradamente e com muito carinho. Claudinei mandou abrir a barreira e gritou:

"Sou eu e você Jorjão, vamos ver quem é o melhor"!!!.

Jorge de Freitas afastou-se mais que o normal, respirou fundo com as mãos na cintura e olhos fixos no gol. Depois veio nem caminhando nem correndo e fuzilou a bola que viajou como um bólido para o centro do gol à meia altura.

Claudinei tirou de cabeça. É verdade que o goleiro caiu no fundo do gol desacordado mas, tirou de cabeça. A bola voltou para o meio de campo com a mesma velocidade com que fora chutada ao gol.

Decepção total
Dali pra frente, seu Jorge que já não era muito dado a conversas, fechou-se de vez, emudecendo-se. Começou a andar ainda mais só, e quando sentado, permanecia sempre de cabeça baixa.

Seu vistoso jogo clássico foi se acabando. As cobranças de suas faltas já não eram mais temidas, e suas substituições começaram ser freqüentes.

Numa manhã fria de agosto, no bairro São João, em Votuporanga, Jorge de Freitas foi encontrado morto. Sobre seu caixão nenhuma homenagem e nem uma rosa sequer havia ali. Nem mesmo a bandeira da Votuporanguense, seu último grande amor, como ele mesmo dizia, foi colocada.

Esta é uma história que se passou em Votuporanga, na Votuporanguense, com o Jorge de Freitas. Agora, quantos JORGES por esse mundão de meu Deus não tiveram o mesmo destino ? São muitos os craques, por esse Brasil, que ajudaram demais o clube, e depois, como reconhecimento, nem uma vela, nem uma coroa de flores e nem mesmo a bandeira sobre o caixão.

É, eu acho que o seu JORGE DE FREITAS tinha razão. Comemorar e agradecer o quê ?


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