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26/08/2009 - Entrevista com Lo Batista a lenda viva do rdio e da TV

Aos 75 anos de idade e 60 de profisso recm-festejados, Lo Batista um dos mais antigos locutores esportivos em atividade. Comeou a trabalhar na adolescncia, no servio de alto-falantes de Cordeirpolis, interior de So Paulo, onde nasceu em 22 de julho de 1932, e estreou como redator na Rdio Globo, no Rio, para onde se mudou no incio da dcada de 50. Mais tarde transferiu-se para a extinta TV Rio, onde durante 13 anos comandou o Telejornal Pirelli, poca um dos mais prestigiados do pas.

Em 1970, ingressou na TV Globo, onde est h 37 anos e s no mais antigo que o colega Cid Moreira. Na emissora, inaugurou o Hoje, participou do Jornal Nacional, narrou os gols da rodada no Fantstico, e tem microfone cativo no Globo Esporte e no Esporte Espetacular.

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Voc comeou a trabalhar muito cedo...

Lo Batista Sim, para ajudar a famlia, mas primeiramente de garom, numa pequena penso que meu pai havia montado.

Quando surgiu o interesse pelo rdio?

LB Sempre gostei do veculo. Em 1947, estreei ao microfone a convite de um primo, Antnio Beraldo, que inaugurou em Cordeirpolis um servio de alto-falantes, muito comum nas cidades pequenas. O estdio ficava numa praa perto do prdio da penso e eu fui o ltimo a fazer o teste. Li um anncio, anunciei uma msica e, quando vi, estava dando as notcias. Meu primo gostou e disse que eu seria o seu locutor. Achei que ele estava maluco s de pensar em apresentar essa idia ao meu pai, um italiano queixo-duro que j estava contrariado por eu haver deixado a escola para ser garom.

Qual foi a reao dele?

LB A que se esperava, principalmente porque naquela poca, gente de rdio, artista, msico, compositor e cantor eram todos mal-vistos, por causa da vida bomia. A sociedade tinha deles o pior conceito possvel. Mas o Beraldo disse ao meu pai as palavras mgicas: "Seu Antnio, ele vai trabalhar, mas no de graa. Vou dar 200 mil ris s para comear. E, se ele conseguir algum anncio, ainda ganha uma comisso." Com dinheiro, meu pai na hora mudou o discurso: "Ah, ele vai ganhar um dinheirinho? A est bem, mas tem que ser depois do horrio do trabalho na penso."

Quanto tempo durou essa experincia?

LB Uns seis meses, at que apareceu em Cordeirpolis um senhor, Domingos Lote Neto. Ele gostou da minha voz e insistiu em me levar para fazer um teste na recm-inaugurada Rdio Clube de Birigui, "a prola do Noroeste". Fiz e fui contratado. L, transmiti futebol, parada de 7 de Setembro e programas de auditrio como o Clube da Alegria, em que tive o privilgio de apresentar a Hebe Camargo na festa do primeiro aniversrio da emissora.

De l voc veio direto para o Rio?

LB Andei por mil lugares, at que um tio me mandou procurar um amigo dele, Aristides Figueiredo, que tinha acabado de comprar a Rdio Difusora de Piracicaba. Na poca, o XV de Novembro, time local, tinha subido para a primeira diviso do Paulisto e ele buscava um locutor esportivo. Passei a acompanhar e narrar os jogos do antigo campo da Rua Regente (ainda no existia o estdio Baro da Serra Negra). Depois, comecei a ir para o Pacaembu, a Vila Belmiro... Eu era atrevido. Vim at para o Rio transmitir a Copa de 50.

Como foi trabalhar no Maracan na final da Copa?

LB Naquele tempo no havia as facilidades de comunicao de hoje. As rdios eram obrigadas a pedir as linhas telefnicas com muita antecedncia. Na Copa, cerca de 300 emissoras disputavam essas linhas e a prioridade era das grandes emissoras do pas e do exterior. Ou seja, a minha radiozinha l do interior ficou pra escanteio, e eu no pude transmitir a partida.

Deve ter sido como ficar no banco de reservas...

LB , mas depois participei de todas as Copas. Ao vivo ou na retaguarda, atuei tambm em Olimpadas, Jogos Pan-Americanos... No perdi mais nada.

E como aconteceu a mudana para o Rio?

LB Vim em 1951 com Walter Goulart, o Santo Cristo, que jogou no XV de Piracicaba e, mais tarde, em quase todos os times cariocas. Ele era um grande artilheiro e garantiu que me arranjava um emprego aqui.

A promessa se concretizou?

LB Quando chegamos, ele me levou antiga Mayrink Veiga. S que eu no gostei, a coisa no deu certo. Com pouco dinheiro no bolso, entrei no lendrio Caf Nice pensando em ir Rdio Clube do Brasil, falar com o Raul Longras, que me havia sido recomendado. Encontrei o Airton Vieira de Morais, o Sanso, ex-juiz de futebol, que era amigo do Santo Cristo e me incentivou a ir Rdio Globo, que estava comeando a incrementar o noticirio esportivo, com Luiz Mendes, Benjamim Right, Doalcei Camargo e Geraldo Borges. Fui emissora e me lembrei que l trabalhava o Raul Brunini, que eu conhecia de nome. Quando me dirigia recepo, ele apareceu. Eu me apresentei, disse que era locutor e pedi uma chance. Ele perguntou como eu me chamava e respondi "Belinaso Neto" meu sobrenome verdadeiro, que eu usava na poca. Ele ento comentou: "Vem c, domingo passado eu estava em Rio Claro. Foi voc que transmitiu XV de Piracicaba e Palmeiras, pelo Campeonato Paulista? Cara, voc torce demais pro XV, mas muito bom."

Seu ingresso na Globo foi imediato?

LB No. O Brunini me levou editoria de Esportes, onde o Luiz Mendes estava fazendo um concurso que j havia selecionado dois locutores, Otvio Nami e o Braga Jnior. Sobrara apenas uma vaga de redator no noticirio Globo no ar. Mendes ento me apresentou ao Oto Schneider, diretor de broadcasting, que me mandou escrever uma edio do jornal e chamou o redator encarregado do programa, Rubens Santos. Ele viu o meu trabalho e aprovou minha contratao.

Com um bom salrio?

LB O Oto Schneider disse que s podia me pagar 1.500 cruzeiros, o que s dava para uma refeio por dia, almoo ou jantar. Conduo, nem pensar. O Rubens Santos ouviu, se levantou e disse a ele: "Voc no tem vergonha de oferecer uma misria ao rapaz? Ele tem talento, bom. Me disseram que tambm locutor, de repente pode at apresentar o noticirio. D um aumento pra ele."

Isso indito: ser contratado e receber aumento imediato de salrio...

LB Eu nem tinha sido contratado! O Schneider olhou de um lado a outro, pensou, e me ofereceu 2 mil cruzeiros. Acho que um caso nico na histria ser aumentado antes de comear a trabalhar.

Como voc ingressou na equipe de Esportes da rdio?

LB Consegui convencer o Jos Brasil Campel, que era o brao-direito do Luiz Mendes, a ouvir uma gravao que eu tinha feito em acetato naquele tempo no havia fitas como as de hoje de uma narrao minha de um jogo de futebol. Enquanto ele ouvia, o Doalcei se aproximou e elogiou a narrao. O Jos Campel, ento, me escalou para um jogo de domingo, no Maracan.

Algum fato marcou esta sua estria?

LB Transmiti o jogo preliminar e, ao final, anunciei: "Daqui a pouco, sensacional Fla-Flu, sob o comando de Luiz Mendes." Entreguei o microfone a ele, que entrou no ar dizendo: "Vocs ouviram a narrao brilhante do mais jovem locutor contratado da Rdio Globo, Bee, Beni, Beli..." Foram algumas tentativas sem conseguir pronunciar meu nome. O Mendes engasgou vrias vezes, olhava para mim com cara feia, e eu soprando no ouvido dele: "Belinaso Neto, Belinaso Neto..." (risos)

O que aconteceu depois?

LB noite, na rdio, um pouco antes de ir para o estdio e comear a resenha esportiva, o Mendes virou-se para e mim e disse: "Paulistinha, com esse nome a, voc est fora. Tem que trocar." Reclamei, mas no teve jeito. Lembrei da minha irm, que tem horror ao nome dela, Leonilda, e que a gente s chama de Nilda. Peguei o "Leo" dela, deixei de lado o Joo Belinaso Neto, e virei Lo Batista.

Voc teve o privilgio de transmitir o primeiro jogo do Garrincha. Lembra da partida?

LB Foi em 1953, no antigo campo do Botafogo, entre o time da casa e o Bonsucesso. Quase na hora da transmisso, havia uma dvida em relao ao nome do jogador: Gualicho que era como se chamava um cavalo que tinha corrido o Grande Prmio Brasil ou Garrincha? Para tirar a dvida, atravessei o campo, fui ao vestirio, onde ele estava se vestindo, e perguntei: "Rapaz, como o seu nome, Gualicho ou Garrincha?" E ele respondeu: "Pergunta pro seu Santos." O Nilton Santos, que vinha se aproximando, confirmou: " Garrincha." Naquele dia, apenas um locutor da Rdio Nacional, que era bom mas muito teimoso, fez a transmisso usando Gualicho. Eu dizia para ele o nome certo, mas no adiantou.

Voc foi tambm o primeiro locutor a anunciar a morte do Getlio?

LB Fui e provo isso com reportagens da poca. Na noite em que o Getlio se matou, o Lacerda, como era de costume, usava o microfone da Rdio Globo para desancar o presidente. De repente, nosso plantonista no palcio ligou para a redao e comeou a gritar: "Manda o Lacerda parar, o Getlio Vargas deu um tiro no peito, se suicidou!" Foi aquele rebulio. Cortaram o Lacerda e eu entrei com uma edio extraordinria do Globo no ar, anunciando a morte do presidente.

Por que dizem que o Reprter Esso, com Heron Domingues, deu a notcia primeiro?

LB O Reprter Esso, da Nacional, era o grande noticirio do rdio na poca, mas eles s deram a notcia 15 minutos depois da Globo. O furo foi nosso, mas o Brasil realmente s tomou conhecimento da morte do Getlio atravs da Nacional, que naquele tempo j era uma potncia, enquanto que a nossa freqncia ainda era pequena, s ia at Nova Iguau (risos). A Globo era uma rdio atrevida, mas no era a emissora poderosa de hoje.

Em 1955, voc trocou o rdio pela televiso...

LB A TV Rio ia ser inaugurada. O Luiz Mendes foi convidado para formar uma equipe esportiva e me chamou para ir com ele. Quando anunciei na Rdio Globo que ia sair, o Luiz Brunini disse que me liberava desde que eu arranjasse para a minha vaga um locutor que fosse bom e inteligente e no tivesse vcios. Treinei bastante um colega de colgio e, quando senti que ele estava pronto, deixei-o fazer uma edio do Globo no ar. Esse locutor era o ureo Ameno, que depois ficou uns 40 anos na emissora.

Que recordaes voc guarda da TV Rio, onde comandou o Telejornal Pirelli?

LB Entrei para o canal para cobrir esportes e fui apresentador do programa de boxe, do qual o Mendes era locutor. Mas a minha paixo era fazer um noticirio. O primeiro horrio que me deram foi de cinco minutos. Nem mquina de escrever eu tinha. Consegui uma Olivetti com um japons que tinha um negcio perto da minha casa, no Catete, e at hoje guardo essa mquina como um trofu. Para usar um telefone e apurar as matrias, pedi ao Mendes para puxar uma extenso do ramal dele. Assim, sozinho, comecei a fazer o Informativo 13, que era patrocinado pela Panair do Brasil.

Quanto tempo durou o programa?

LB A Panair acabou, mas acharam que eu devia continuar porque estvamos ganhando audincia. Ento apareceu o Vinho Castelo e o jornal passou para sete minutos. Depois, esse patrocinador saiu, entrou o Rum Montilla e o programa passou para dez minutos. No Globo, a Coluna do Swann deu uma nota elogiando, mas chamou o Informativo de "o noticirio etlico da TV Rio". A coisa cresceu e eu lancei o Telejornal Pirelli, que fez frente ao Reprter Esso. No final, ainda levamos o Heron Domingues para fazer dupla comigo.

Depois voc ingressou na TV Globo...

LB Antes, aps sair da TV Rio, passei pela Excelsior. Mas j estava de olho na Globo e resolvi procurar o Walter Clark, com quem eu tinha trabalhado na TV Rio e ento era diretor-geral da nova emissora. Quando cheguei l, ainda no havia uma equipe esportiva formada. O primeiro programa que o Walter me chamou pra fazer, Escalada cultural, nunca foi ao ar. A Copa de 62 tinha comeado e, no segundo dia dos jogos, ele entrou correndo na sala e me pediu para quebrar o galho numa transmisso, pois havia um problema tcnico e a locuo teria que ser feita do estdio. Na partida, saiu o primeiro gol daquela Copa e a narrao foi minha. No mesmo dia aconteceram o seqestro do presidente da Argentina e um terremoto e o Jornal Nacional ia dar uma edio extraordinria. O Walter me mandou novamente para o estdio e eu li o noticirio. Quando sa, ele estava conversando com o Boni, que resolveu me contratar.

De l para c, so 37 anos de TV Globo, com destaque na programao esportiva...

LB Pois . Depois da transmisso do torneio Copa Brasil, atual Copa do Brasil, resolvemos manter o horrio e ampliar o leque. Decidimos que, em vez de fazer somente futebol, passaramos a falar de todas as modalidades esportivas. A, o Boni sugeriu o Globo Esporte, que at hoje o nome do programa. Depois veio o Esporte Espetacular, que foi sofrendo modificaes e continua brilhando at hoje.

Voc tem participao em quase todos os telejornais da emissora...

LB No Jornal Nacional, comecei a aparecer para falar de esportes, mas curiosamente, nos ltimos tempos, apresentava tambm o noticirio internacional, enquanto o Cid Moreira e o Srgio Chapelin liam o futebol. Acho que a emissora lembrou que eu era locutor de notcias gerais desde a TV Rio, jogando nas onze.

Muita gente j deve ter lhe perguntado quando o seu repertrio de histrias ser reunido em um livro.

LB difcil o dia em que pelo menos umas dez pessoas no falam sobre isso. Eu sempre respondo do mesmo jeito: "D dinheiro? Se no d, eu no escrevo." (risos) Quem sabe, uma hora dessas eu escrevo algumas dessas histrias. Mas so muitas.

Conte uma.

LB Aconteceu no lanamento do jornal Hoje, em 21 de abril de 1973. Contrataram o Luiz Jatob para ser o apresentador. Ele entrou no estdio e, com aquele vozeiro, anunciou: "Muito boa tarde. A TV Globo inicia hoje um novo captulo na sua histria e lana um telejornal vespertino. Hoje, 21 de abril, dia de lembrar Joaquim Jos da Silva Tiradentes." Na hora ele mesmo se assustou e emendou: "Joaquim Jos da Silva Tiradentes, o Xavier." (risos) A o Borjalo entrou correndo no estdio, gritando: "Segue voc Lo, segue voc!" Romperam o contrato do Jatob e eu fiquei um tempo como apresentador do programa.

O que provocou sua sada do Fantstico?

LB Fiz o programa muitos anos e me tiraram para dar lugar ao Tadeu Schmidt, que irmo do ex-jogador de basquete Oscar Schmidt. As mudanas acontecem e a TV Globo quis inovar e mudar de estilo, com um apresentador mais jovem. Sinto falta das narraes nas noites de domingo porque eu gostava muito do que fazia. Mas no vou chorar por isso. A direo do Fantstico inaugurou uma frmula nova. Se vai dar certo ou no, foge da minha competncia.

Voc pensa em pendurar as chuteiras?

LB Olha, se arranjarem uma metralhadora, com bala de verdade mesmo, que no falhe, para me dar uma rajada, de repente eu paro de trabalhar. Mas, se no for assim, no paro, no. Estou com 75 anos de idade, completei 60 de profisso e no encontro nem o termo apropriado para descrever o que sinto por ela. Outro dia fiquei imaginando a hora em que eu no puder mais entrar na emissora e falar com os amigos. Evito pensar nisso. Desejo continuar fazendo o meu trabalho. A no ser que achem que fiquei velho demais, que j estou gag. (risos) Enquanto Deus me der voz e sade e a TV Globo quiser, eu continuo.


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