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26/08/2009 - Meu jogo inesquecivel: Por Alessandro Fontenele, torcedor do Fortaleza

Fortaleza campeão cearense de 1982. Em pé Clésio, Pedro Basílio, Nélson, Salvino, Chagas e Alexandre; agachados: Adílton, José Eduardo, Beijoca, Assis e Edimar



O ano da graça de 1982 começou muito bem para mim. Passei no vestibular, comecei a fazer a faculdade, muitos amigos, muitas esperanças e uma grande tristeza: havia oito anos e meu time não era campeão. Em criança, com uns nove anos, já presenciara uma volta olímpica, mas meio sem saber o que significava toda aquela festa; e olha que aquele título de 1974 fora um dos maiores do meu clube, conquistado após vencer seu arqui-rival por três vezes seguidas no espaço de uma semana. Mas eu não sentira, eu não participara, eu não assistira jogo após jogo, decisão de turno após decisão de turno. Eu não colaborara: já era tempo de ser campeão de ser campeão de verdade.

O ano da graça de 1982 também trouxera dois fenômenos para o meu clube. À época, eram dois veteranos e muito se discutia sobre a validade de suas contratações. Um deles, zagueiro de rara técnica, nossa cria, jogara conosco em 1974. Desde sua saída, só decepções. O outro, uma espécie de carrasco de meus sonhos de adolescente, pois sempre jogara no nosso maior rival. De futebol belíssimo, de toque refinadíssimo, de visão de jogo surpreendente, que eu dificilmente tornarei a ver, seja com a camisa do meu time, seja com as camisas amarelas tão maculadas nos dias que correm. Pedro Basílio Filho e Zé Eduardo de Castro jogariam o campeonato de 1982 pelo Fortaleza.

Ao longo do campeonato, juntaram-se aos dois o grande Celso, o Celso Gavião. O inesquecível Beijoca, um tanque tricolor. O oportunista Miltão, capaz de gols salvadores no apagar das luzes de vários jogos. O faquir, Assis Paraíba, jogador de toque de bola rápido e inteligente e Adílton dono de habilidade prodigiosa e de uma inacreditável capacidade de conduzir a bola em direção ao gol.

Em comum, todos tinham o fato de serem rodados, veteranos, habilidosos e estrelas. Para comandá-los, era impossível ser um homem comum. Era necessário alguém que enxergasse um campo de futebol com a clarividência de um cirurgião que salva uma vida: era necessário um gênio. Só Moésio Gomes possuía esse perfil. Pois ele, justo ele, o técnico campeão de 1974, era o nosso treinador.

"Como perder um campeonato, se esses caras eram realmente o que esse maluco fala?" Podem pensar os leitores mais afoitos. Ocorre que do outro lado havia o Ferroviário, o bravo Ferroviário do terrível Jorge Veras. O outro adversário, o mais tradicional, fora humilhado diversas vezes ao longo do campeonato, em momentos de pura magia, protagonizados por Zé Eduardo e Cia. e não chegara à decisão. Qual é o cearense que gosta de futebol que não se lembra de um histérico locutor esportivo falando: " Atenção, torcida alvinegra, faltam 10, 9, 8, 7, 6, 5...lá vai Assis Paraíba, passou para Adílton, limpou, atirou e (baixo, bem baixinho, quase chorando, sentindo a penetração)...meteu!!!!!"

Mas estou aqui é pra falar do meu jogo inesquecível. Não posso enrolar! O domingo estava muito quente. Eu estava uma pilha de nervos. Afinal de contas, o Ferroviário sempre foi uma pedra no sapato do meu time. O jeito era tomar todas pra acalmar os nervos.

Na verdade, a final foi um anticlímax. Foi um jogo que se definiu muito rapidamente. Depois de segurar duas partidas com um time bem inferior, o Ferroviário chegava ao limite de suas forças; e Logo naquele domingo quente, naquele domingo em que os Deuses do futebol resolveram aparecer sob a forma de Adílton. O "gordinho" fez três gols (Rôner, de falta, fez o outro). Zé Eduardo, a elegância personificada distribuía a bola, como que regendo uma orquestra, adequando o ritmo do time às necessidades da partida. Pedro Basílio, que os locutores da época apelidavam de "Maravilha Negra" impedia qualquer ação do Ferroviário, principalmente do sempre perigoso Jorge Veras.

Lá por volta dos vinte minutos do segundo tempo, a festa já era total. Ninguém mais se importava com o raio do jogo, do tal do meu jogo inesquecível. Era vibrar e curtir a realidade de um campeonato de sonho.

Ah! No finalzinho, aquele locutor histérico não deve ter falado: "10, 9, 8, 7,...1, Fortaleza, Campeão Cearense de 1982". Pois muito bem, falo eu: Leão, Campeão Cearense da ano da graça de 1982.


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